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sábado, 15 de outubro de 2022

O Pequeno Órfão

Morando numa casa confortável, Ricardo era um menino que levava vida tranquila e segura. Uma família amorosa supria-lhe as necessidades, e ele frequentava uma boa escola onde tinha muitos amigos.

Ricardo, porém, não se contentava com o que Deus lhe concedera.

Estava sempre desejando algo mais e suspirando por tudo o que seus amigos tinham.

Sabem o que é isso? É um sentimento muito feio chamado: INVEJA.

Se os pais o presenteavam com um carrinho, ele reclamava com raiva:

— Não quero essa droga. Quero um carrinho de controle remoto, como o que o Dudu ganhou no aniversário!

— Mas, filhinho, é muito caro! — dizia a mãe, triste.

— Não me interessa. Quero, quero e quero! — gritava, batendo os pés.

Quando a mamãe carinhosa lhe comprava uma roupa, ele falava com desprezo:

— Que coisa horrível! Acha que vou usar “isso”? Essa roupa não vale nada!

— Quando a vi na loja achei bonita e lembrei-me de você, meu filho — justificava-se a mãe, pesarosa.

— Pois pode devolver. Não vou usar. Gosto de roupas caras e de lojas chiques. Na verdade, eu quero mesmo é uma calça “jeans” como a do Beto.

Na hora da refeição era o mesmo problema sempre. Ricardo reclamava de tudo:

— Legumes novamente?

— Sim, meu filho. Legumes fazem bem à saúde e são gostosos.

— Pois não como! — gritava o menino, empurrando o prato com grosseria. — Ainda se fosse um frango assado, como o que eu vi outro dia na casa do Adriano, eu comeria.

— Meu filho — respondia a mãe desgostosa — essas coisas são caras e a vida está difícil. Você sabe que nada nos falta, mas o papai trabalha muito para manter a casa. Devemos é agradecer a Deus por tudo o que possuímos e pela vida tranquila que temos.

O garoto balançava os ombros com desprezo e saía resmungando.

A mãe de Ricardo, em suas orações, sempre pedia a Deus que ajudasse seu filho, tão invejoso e egoísta, a ver a vida com outros olhos.

Certo dia, o garoto havia brigado com os pais; exigira a compra de uma bicicleta nova e, como eles se negaram, o menino saiu batendo a porta, chorando e reclamando:

— Ninguém gosta de mim! Ninguém me dá o que peço! Sou um infeliz abandonado. Tenho vontade de sumir de casa!

Ricardo chegou até uma praça e sentou-se num banco. Amuado, ali ficou, resolvido a não voltar logo para casa; queria dar um susto nos pais.

Após alguns minutos percebeu uma criança um pouco menor do que ele que, sentada no chão, parecia muito triste.

Aproximou-se sem saber por quê. Na verdade, nunca se interessara pelos problemas dos outros.

— Olá! — disse, a guisa de cumprimento.

O menino levantou a cabeça e Ricardo percebeu que chorava.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou sem muito interesse.

— É que me sinto muito sozinho. Não tenho ninguém que goste de mim. Sou órfão e vivo na rua — murmurou o garoto.

— Como assim? Não tem casa?

— Não. Quando meus pais morreram fui morar com uma tia. Mas ela me maltratava e obrigava-me a roubar, alegando que eu comia bastante e lhe dava muitas despesas. Depois de algum tempo, não aguentei mais; fugi de casa e, desde esse dia, durmo nos bancos das praças.

— E onde você come?

O garoto sorriu. Um sorriso triste e desconsolado.

— Normalmente, peço um prato de comida em alguma casa rica, mas nem sempre consigo. Então, reviro as latas de lixo à procura de algo para comer. Você não imagina quanta coisa boa a gente acha numa lata de lixo!

Ricardo, que nunca imaginara que existissem pessoas passando por tanta necessidade, estava surpreso e chocado.

— Quantos anos você tem? Como se chama?

— Tenho oito anos e me chamo Zezé. E você? Você também está triste! Também não tem ninguém?

— Tenho sim, Zezé — falou Ricardo com satisfação. — Tenho uma família maravilhosa e gostaria que você a conhecesse. Minha mãe é muito boa e faz uma comida simples, mas muito gostosa. Quer almoçar comigo?

Zezé aceitou com alegria. Desde o dia anterior não se alimentara e estava faminto.

Chegando ao seu lar, Ricardo apresentou o novo amigo e, em lágrimas, pediu desculpas pelo seu comportamento.

— Mamãe, eu compreendo agora que Deus foi muito bom dando-me uma casa boa e confortável e uma família amorosa que se preocupa comigo. Que mais posso desejar?

Muito contente com a mudança que se operara em seu filho, a mãe abraçou-o emocionada, dizendo-lhe com carinho:

— Que bom, meu filho, que você pense assim. Deus ouviu minhas preces e, se não somos ricos de dinheiro, somos ricos de amor, de paz, de alegria e de saúde. Não é verdade?

— É verdade, mamãe — concordou Ricardo, sorridente.

Zezé ficou por alguns dias naquele lar e, tão bem se adaptou ao ambiente da casa que, a pedido de Ricardo, que se afeiçoara muito a ele, foi adotado, passando a fazer parte da família, para alegria de todos.

Autoria: Célia Xavier Camargo – Imagem meramente ilustrativa – Fonte: Internet Google.
 

sábado, 1 de outubro de 2022

A Surpresa do Achado

Certa vez, um pequeno pastor caminhava pelos campos pastoreando suas ovelhas.

Já estava cansado e com fome quando, sobre o capim verde e em meio à vegetação, encontrou pequena bolsa de couro. Abriu e, qual não foi sua surpresa: ali estavam cinco lindas moedas de ouro brilhando no fundo da bolsa!

Ficou eufórico! Quanta coisa poderia fazer com esse dinheiro!

Pegando as rutilantes moedas na mão, ainda pensou que deveriam pertencer a alguém, e que esse alguém por certo estaria desesperado.

O desejo de ficar com as moedas, porém, falou mais alto e, acalmando a consciência, guardou o pequeno tesouro pensando, sem muito entusiasmo:

— Se por acaso encontrar a pessoa que perdeu as moedas, devolvo-as. Caso contrário, elas são minhas por direito, pois as encontrei.

E assim pensando, passou o resto do dia a fazer planos de como usaria o tesouro que tão inesperadamente lhe caíra nas mãos.

Ao cair da tarde, levou as ovelhinhas de volta para casa, resolvido a nada contar à sua mãe, com medo de que ela o fizesse devolver as moedas. Afinal, não existiam tantas casas assim nas imediações e, por certo, alguém do vale as perdera.

Ao chegar em casa ficou sabendo que seu pai precisara fazer uma viagem para fechar um negócio muito lucrativo.

Três dias depois seu pai voltou. Vinha desanimado e triste, todo sujo e coberto de poeira.

A mulher, preocupada, perguntou o que acontecera, e ele respondeu:

— Você não imagina o que me aconteceu! Após muito viajar cheguei ao meu destino. Quando fui fechar o negócio, porém, dei por falta do dinheiro que levara separado para pagar as ovelhas. Procurei por todo lado, revirei meus pertences, mas nada achei. Percebi, tarde demais, que a mochila que levara estava com um buraco no fundo e, por certo, deixara cair pelo caminho a bolsa com o dinheiro. Mas, como encontrar? Com certeza alguém já teria achado seu dinheiro e nunca mais veria aquele que representava as economias de muito trabalho e dedicação.

E o homem tristemente concluiu:

— Meus recursos terminaram e tive que recorrer à caridade pública. Não tinha onde me abrigar, nem o que comer. Graças a Deus, consegui chegar até aqui em casa depois de muito sofrimento. Embora tenha perdido tudo o que possuía, tenho vocês que são o meu tesouro.

Assim dizendo, abraçou o filho e a esposa, emocionado até às lágrimas.

O jovem, lembrando-se do tesouro que possuía ficou contente. Afinal, poderia fazer algo pelo seu querido pai.

Correu até seu quarto e voltou com a pequena bolsa de couro contendo as cinco moedas e, com sorriso feliz, entregou-a ao pai, dizendo-lhe:

— Pegue, meu pai. É tudo seu!

O pobre homem ao ver a bolsa reconheceu-a e perguntou surpreso:

— Onde foi que a encontrou, meu filho?

— Em meio à vegetação, quando pastoreava as ovelhas.

— É verdade! Eu quis ganhar tempo e cortei caminho pelo campo, saindo da estrada. Oh, meu filho! Graças a Deus, você a encontrou. O Senhor é muito bom! Mas, como soube que era minha?

De olhos arregalados o rapaz respondeu:

— Não sabia, papai. Nunca poderia supor que lhe pertencesse. Julguei que fosse de outra pessoa!

O pai ficou sério repentinamente e, segurando-o pelo braço, inquiriu:

— O que fez, meu filho? Encontrou este tesouro que alguém perdera e ficou com ele, quando não lhe pertencia? Como fui eu que perdi, poderia ser qualquer outra pessoa aqui do vale. Não pensou no desespero que, por certo, atingiria o dono das moedas e na falta que elas lhe fariam?

— Não, papai. Não pensei em nada disso. Desculpe-me. Somente agora começo a perceber como fui egoísta e ambicioso.

O pequeno pastor, arrependido, abaixou a cabeça, enquanto as lágrimas corriam pelo seu rosto.

— Perdoe-me, papai. Sei que agi errado e agora compreendo a enormidade da minha falta.

O pai afagou a cabeça do filho, dizendo:

— Meu filho, nós temos que respeitar o que é dos outros, para que os outros também respeitem o que nos pertence. Jesus, nosso Mestre, ensinou que seríamos responsáveis por todos os nossos atos e que deveríamos fazer ao próximo o que gostaríamos que ele nos fizesse. Agora pense: Se você tivesse perdido as moedas, o que gostaria que lhe fizessem?

— Ficaria muito feliz se quem as achou me devolvesse a bolsa, com as moedas, claro!

— Então, meu filho, assim também deve fazer para com os outros.

O pequeno pastor agradeceu a lição recebida e prometeu a si mesmo que nunca mais seria egoísta e ambicioso.

Autoria: Célia Xavier Camargo – Imagem meramente ilustrativa - Fonte: Internet Google.
 

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

O Esquilo Fujão

Numa clareira da floresta, habitava uma família de esquilos que vivia em paz e harmonia.

A pequena família era constituída do papai Esquilão, da mamãe Esquila e de um casal de filhotes muito obedientes. Todos se estimavam sinceramente, pois entre eles havia compreensão e amizade.

Enquanto papai Esquilão saía em busca do sustento da família, mamãe Esquila permanecia em casa cuidando dos filhos e dos afazeres domésticos.

Certo dia, Esquila descobriu que ia ser mãe novamente. Todos ficaram muito felizes. Afinal, as crianças estavam crescidinhas e um bebê fazia falta em casa.

Dentro de pouco tempo, a família aumentou. Era um lindo filhotinho!

O filhote crescia rápido e se tornava cada vez mais exigente. A pequena família vivia em função dele, fazendo-lhe todas as vontades.

Mas nem tudo podia ser permitido! E cada vez que sua mãe o repreendia, ele ficava revoltado e infeliz.

Com o passar do tempo, começou a achar que ninguém o amava. Sempre viviam ralhando com ele: “Não faça isso, Esquilino! Não faça aquilo! Arrume suas coisas!”

Um dia, cansado de tudo, sentindo-se muito triste, foi embora resolvido a viver livre na floresta. Sua mãe sempre o alertara para os perigos que encontraria, mas ele nunca se importou. O pai também jamais permitira que ele se internasse na mata sozinho preocupado com sua segurança. Agora, no entanto, ele estava livre e não precisava obedecer a ordens de ninguém.

— Ufa! Afinal vou levar a vida que sempre desejei. Já sou bastante crescido para cuidar de mim mesmo! — pensou.

Andou bastante pela floresta, satisfeito da vida.

Aos poucos foi escurecendo e o pequeno esquilo não tinha encontrado ainda local onde pudesse se abrigar. Os ruídos da mata o assustavam e ele desejou estar ao lado de sua mamãe, sempre tão amorosa.

Mas agora estava perdido. Não sabia mais voltar. E, além de tudo, estava com uma fome terrível!

A escuridão foi ficando cada vez maior e mais apavorante.

Cansado de tanto andar, Esquilino aninhou-se no tronco de uma grande árvore e adormeceu depois de muito chorar.

De manhãzinha, acordou ouvindo o ruído de folhas secas. Alguém se aproximava. Levantou-se rápido. Quem sabe era alguém que poderia ajudá-lo?

Era um lobo enorme e ameaçador!

Quando o lobo uivou, arregaçando os dentes perigosamente, o esquilinho saiu em grande disparada.

Ao perceber que não estava mais ao alcance do lobo, parou para descansar.

— Ufa! Que sufoco! — disse mais aliviado.

Nisso, ouviu um ruído estranho, como se fossem guizos. Olhou para o chão e se deparou com uma enorme cobra pronta para dar o bote.

Apavorado, fugiu novamente tão rápido quanto lhe permitiam as pernas.

Com o coração aos saltos e a respiração ofegante, parou junto a uma árvore. Suas pernas estavam bambas! Encostou-se nela para recuperar o fôlego, quando escutou um zumbido diferente.

O que seria? Olhou para o lado e percebeu que quase tocara num grande cacho de abelhas. E elas pareciam realmente enfezadas!

Reunindo as forças, fugiu de novo procurando escapar do enxame que vinha em sua direção.

Olhando para trás, não viu um riacho logo à sua frente. Caiu dentro dele, ficando todo molhado.

Felizmente, as abelhas o perderam de vista e Esquilino pôde sair da água tranquilamente.

Olhando em volta, reconheceu o lugar. Sim! Estava próximo de casa!

Mais confiante, tomou uma pequena trilha e em poucos minutos chegou à clareira onde residia.

Todos ficaram felizes e aliviados com sua volta e o abraçaram e beijaram repetidas vezes.

Mais refeito, após se alimentar convenientemente, Esquilino disse à sua mãe:

— Sabe, mamãe, descobri que nada é melhor do que o lar da gente! Pensei que não me amassem, porque viviam me repreendendo. Agora, sei que é justamente por me amarem muito que agiam assim. Passei por muitos perigos, sentindo-me só e desamparado. Apenas aqui, junto de vocês, estou seguro e tranquilo.

E a mamãe, com lágrimas nos olhos, afirmou risonha:

— É verdade, meu filho. Nada como o amor da família. Porém, jamais esteve desamparado. Deus velava por você e o trouxe são e salvo para o nosso convívio.

E Esquilino, baixando a cabeça, disse comovido:

— Obrigado, meu Deus, pela família maravilhosa que o Senhor me concedeu!

Autoria: Célia Xavier Camargo – Imagem meramente ilustrativa - Fonte: Internet Google.
 

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Luz interior

Prisma era um peixinho que vivia solitário em um pequeno rochedo submerso. Quase não saia de casa, devido a uma deficiência motora, que dificultava a sua locomoção.

Quando nasceu ninguém sabia dizer, e muito menos dizer quem eram seus pais.

Muitos moradores daquela aldeia sabiam apenas que Prisma era uma criaturinha diferente dos outros de sua espécie.

Às vezes o peixinho colocava sua cabecinha para fora do pequeno rochedo para abocanhar algas frescas.

Eu sabia da sua vida e das suas dificuldades, porque Prisma era meu vizinho.

Quem sou eu?

Meu nome é Conchilda e sou uma concha velha, mas muito observadora. Via Prisma sair quase todas as noites e ficar olhando para o grande clarão da lua que refletia nas águas, e isso chamava minha atenção.

Às vezes eu me perguntava o quê será que Prisma pensava!

Um dia tomei coragem e aproximei-me do peixinho, que estava envolto em seus pensamentos, a olhar distante para a luz, e disse:

- Por que olha tanto?

Sem tirar os olhos da luz, delicadamente disse:

- Procuro respostas.

- Respostas para quê?

- Resposta para compreender a minha existência – e prosseguiu: Às vezes a luz se torna forte, dando-me uma grande sensação de segurança, e posso até me sentir vitorioso.

Eu pensei: Como vitorioso?! Afinal, o pobre mal podia bater sua barbatana!

Dei um pequeno sorriso e tentei conter minha emoção, e lhe disse:

- Não compreendo você!

- Nem queira Conchilda, porque para sermos vitoriosos precisamos aceitar o inevitável.

Pensei... O quê seria inevitável?!

- Conchilda, nossa existência é a obra máxima do Criador.

- Como?!

- Olha, imploramos para ser criados e pouco agradecemos pela nossa existência. A vida, por si só, já é uma benção, e devemos agradecê-la sempre, ainda que não sejamos perfeitos, pois deve haver uma razão justa para isso.

- Você agradece ao Pai Criador, Prisma?

- Sim, todas as noites venho aqui e fico a admirar a luz, e oro ao Criador pelas dádivas maravilhosas que Ele nos concede.

Fiquei calada. Como podia um peixe feio, defeituoso e solitário pensar ainda em agradecer ao Criador?! Muitos outros sadios vivem a cobrar do Criador!

Mas refleti profundamente sobre como Prisma aceitava a sua vida, e reconheci a grandeza de sua alma superava as suas limitações físicas. Naquela noite, aprendi com ele a despertar para a vida e acender a minha luz interior, pela oração ao Pai.

Hoje, já sem Prisma ao meu lado, procuro ajudar meu semelhante, ensinando sobre o poder da prece e falando da importância da confiança na luz que existe em nós.

Crianças:

Para conquista a luz interior é necessário abrir o coração para Deus, agradecendo sempre a Sua Luz, que nunca nos falta.

Tiamara – Imagem meramente ilustrativa: Fonte: Internet Google.
 

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

O Balão Colorido

Janjão era um menino que possuía um bom coração, mas era muito desobediente.

Sua mãe vivia a lhe dar conselhos, dizendo-lhe:

–Janjão, não mexa com fogo, pois você pode se queimar!

–Janjão, desça desse muro, você pode cair e se machucar!

–Janjão, cuidado com essa faca, meu filho. Ela é muito perigosa!

Mas, qual nada. Janjão continuava o que estava fazendo, fingindo não ouvir as recomendações de sua mãezinha.

Certo dia, Janjão e Pedrinho, seu melhor amigo, estavam entediados. Já haviam brincado de esconde-esconde, jogado bolas de gude, pega-pega, etc., e não sabiam mais o que fazer.

Janjão teve uma ideia luminosa:

– Já sei! Vamos fazer um balão!

– Um balão? – repetiu Pedrinho, surpreso. – Mas não é perigoso?

– Sim, um balão. E não é perigoso não, seu medroso. Vá comprar o papel e a cola.

— Eu? Por que eu? A ideia foi sua! – reagiu Pedrinho.

— Está bem. Então eu vou.

Trabalharam a tarde toda num quartinho que existia no fundo da casa de Pedrinho. Sabiam que a mãe dele estaria ocupada trabalhando e não perceberia.

Depois de pronto, aguardaram com muita ansiedade o anoitecer. Afinal, para ter graça, balão tem que ser solto à noite.

Acenderam o balão e ficaram torcendo para ver se ele ia subir.

O balão foi enchendo... enchendo... enchendo até que lentamente começou a subir.

Os garotos não continham a animação e a alegria. Em pouco tempo, o lindo balão colorido foi subindo... subindo... subindo para o céu, cada vez mais alto. Logo, tornou-se apenas um ponto luminoso como se fosse outra estrela do firmamento. Depois, escondeu-se atrás de umas grandes árvores e os garotos o perderam de vista.

Do balão colorido só ficou mesmo a lembrança. Ainda conversaram mais um pouco relembrando, emocionados, a linda subida do balão.

Janjão, lembrando-se de que já era tarde e seus pais deveriam estar preocupados, despediu-se e foi embora.

Morava num sítio e precisava andar um pouco pelo campo para chegar até a sua casa. De longe, avistou um imenso clarão que iluminava o céu, afugentando a escuridão. Apertou o passo e logo percebeu que o fogo vinha de sua casa.

Ao aproximar-se, viu as chamas lambendo as paredes de sua casa, os móveis no terreiro, pessoas que corriam com baldes d’água, tentando conter o fogo. Seu pai, preocupado, andando de um lado para o outro, sua mãe e sua irmã chorando. Aflito perguntou:

– Que aconteceu, papai?

– Ah! Meu filho! Graças a Deus você está bem. Estávamos preocupados sem saber onde você estava. Pensávamos até que poderia estar dentro da casa em chamas. Alguém andou soltando balões e, quando percebemos, o fogo já se alastrara e tomara conta de tudo, como você vê. Com a ajuda de amigos conseguimos ainda salvar alguma coisa, com a graça de Deus.

O garoto, já arrependido, e percebendo o ato que praticara, começou a soluçar:

– Perdoe-me papai. A culpa é toda minha. Fui eu que soltei o balão, mas nunca poderia imaginar que causaria tantos danos.

O pai suspirou, compreendendo o sofrimento do filho, enquanto lhe disse, severo:

– Está vendo, meu filho? Por ser desobediente, quanto mal você causou? Graças a Deus, os prejuízos são materiais apenas, e, embora sejamos pobres, conseguiremos vencer e recuperar o prejuízo que tivemos. Mas, e se alguém tivesse perdido a vida?

Janjão chorava sentidamente.

– Perdoe-me, papai. Agora eu compreendo o mal que causei e que, quando mamãe fala que é perigoso, é porque ela está vendo o que pode acontecer.

O pai abraçou o filho e desse dia em diante Janjão tornou-se um garoto diferente, mais responsável, e até começou a trabalhar para ajudar seu pai a cobrir os danos que involuntariamente causara.

Autoria: Célia Xavier Camargo

Imagem meramente ilustrativa – Fonte: Internet Google.
 

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

O Presente

Beto, menino de nove anos, muito pobre, certo dia ganhou um lindo e apetitoso pedaço de bolo.

Com os olhos brilhantes, pegou o bolo com as mãos, aspirando, com satisfação, o cheiro bom que se desprendia dele, e abriu a boca preparando-se para dar-lhe uma mordida.

Nesse exato momento, porém, parou, lembrando-se que seu irmão menor, Renato, de sete anos, gostava muito de bolo e que há muito tempo não comia um pedaço.

Com um suspiro, embrulhou o pedaço de bolo e disse:

— Já sei! Vou dá-lo de presente ao Renato. Meu irmãozinho vai adorar!

Mais tarde Beto entregou o pequeno embrulho ao irmão que, abrindo-o, não conteve a alegria:

— Que bom! Gosto muito de bolo. Obrigado, Beto.

Mas quando ia morder o pedaço de bolo, Renato lembrou-se de sua irmã Rosa, de quem ele gostava muito, e falou:

— Ah! Beto, se você não se incomodar, gostaria de presentear a mana Rosa com este pedaço de bolo. Ela tem sido tão boa, leva-me para a escola, ajuda-me com os deveres de casa e convida-me para passear.

Beto concordou e ambos levaram o presente para a irmã.

Abrindo o embrulho, Rosa sentiu água na boca. Quando ia dar a primeira mordida, porém, lembrou-se do irmão mais velho, Geraldo, e afirmou:

— Desde que papai desencarnou, nossa situação tem sido muito difícil e Geraldo tem trabalhado bastante para ajudar na manutenção da casa. Acho que ele merece este pedaço de bolo por tudo o que tem feito por nós.

Os outros concordaram e, como estava na hora de Geraldo chegar do trabalho, ficaram aguardando-o no portão, ansiosamente.

Mal o avistaram, os três irmãos correram ao seu encontro. Rosa entregou-lhe o embrulho.

Geraldo abriu e sorriu, feliz. Estava cansado e com fome. Trabalhara o dia todo e quase não se alimentara, e esse pedaço de bolo era muito bem-vindo.

Lembrou-se, porém, da mãe, que vivia exausta de tanto trabalhar e que os amava tanto. Fitou os irmãos e disse:

— Meus queridos irmãos. Agradeço-lhes a dádiva que me fazem, mas acredito que a mamãe merece este bolo mais do que eu. Sempre se sacrificou por todos nós e é justo que ganhe este presente.

Os irmãos foram unânimes em concordar.

Entraram em casa e dirigiram-se à cozinha, onde a mãe preparava a humilde refeição da tarde. Geraldo, rodeado pelos irmãos, explicou o que estava acontecendo e entregou o bolo à mãe.

Com os olhos rasos de lágrimas, a mãezinha fitou os filhos e falou, sensibilizada:

— Beto, Renato, Rosa e Geraldo. Estou muito satisfeita com todos. Vocês demonstraram hoje que somos realmente uma família, que nos amamos muito e que pensam uns nos outros com esquecimento de si mesmos. Vocês aprenderam a lição de Jesus que manda fazer aos outros aquilo que gostaríamos que nos fosse feito. Estou muito feliz e o papai, onde estiver, com certeza também estará bastante satisfeito.

Os filhos estavam muito emocionados, e a mãe sorriu com carinho, propondo:

— E agora, vamos jantar. Depois, repartiremos fraternalmente este lindo bolo e cada um comerá um pedacinho.

Autoria: Célia Xavier Camargo – Imagem meramente ilustrativa - Fonte: Internet Google.
 

sexta-feira, 15 de julho de 2022

Necessidade do Perdão

O dia estava lindo e agradável. Marcelo, porém, chegou em casa irritado e nervoso.

Entrou pisando duro, bateu a porta com força e jogou a mochila numa cadeira.

A mãe, que o observava, aproximou-se serena perguntando:

— Por que todo esse mal humor, meu filho? O sol está brilhando lá fora e a vida é bela! O que aconteceu de tão grave que justifique a maneira desagradável com que entrou em casa hoje?

Carrancudo, o menino respondeu:

— Estou zangado com o Gabriel. Além de rasgar meu livro de estimação, ainda brigou comigo. Não vou perdoá-lo nunca!

A mãezinha enlaçou-o carinhosamente e aconselhou:

— Não diga isso, meu filho. Todos nós precisamos do perdão, pois também erramos. Jesus ensinou que devemos perdoar não sete vezes apenas, mas setenta vezes sete vezes. Isto é, ensinou que devemos perdoar sempre. Além disso, também não devemos julgar ninguém. Será que o Gabriel rasgou seu livro de propósito?

— Não sei e nem me interessa. Não quero mais a amizade dele — afirmou o garoto, categórico.

A mãe passou a mão pelos cabelos do filho e ponderou:

— Tente perdoar, Marcelo. Enquanto você não esquecer a ofensa, não terá felicidade e paz.

— Não consigo, mamãe. Acho que não sei perdoar.

A senhora pareceu meditar por alguns instantes e depois falou:

— Lembra-se de quando você ganhou a bicicleta?

— Como não? — respondeu Marcelo. — Quantas vezes caí até conseguir equilibrar-me e sair andando!

— É verdade, meu filho. Hoje, porém, você não se lembra mais disso quando sai para passear. E quando aprendeu a nadar?

— Também me custou muito esforço! — lembrou o menino.

— E quando entrou na escola para ser alfabetizado? — insistiu a mãe.

— Ah, foi muito difícil. Graças a Deus já sei ler e escrever direitinho — respondeu o garoto contente consigo mesmo.

— Então, meu filho, nada se consegue sem esforço. Também as nossas imperfeições precisam de muita boa vontade da nossa parte para ser tiradas do nosso íntimo. E o ressentimento é uma delas. Precisamos aprender a perdoar.

— Ah! Já entendi. A senhora quer dizer que preciso exercitar o perdão, não é?

— Exatamente.

— Está bem, mamãe. Vou tentar.

No dia seguinte, muito a propósito, Marcelo foi brincar com um vizinho e, sem querer, quebrou um carrinho de estimação do garoto.

Triste, mas conformado, o menino aceitou seu pedido de desculpas, dizendo:

— Não tem importância, Marcelo. Sei que você não fez de propósito.

Ao ouvir as palavras do amigo, que com justa razão deveria estar zangado com ele, Marcelo lembrou-se das palavras da mãe quando afirmou que todos precisamos de perdão.

Naquele mesmo dia, procurou o colega na escola e, com um sorriso alegre, disse:

— Quero que você me desculpe se fui grosseiro outro dia, Gabriel.

— Você tinha razão, Marcelo. Eu rasguei seu livro — respondeu o menino.

— Mas tenho certeza de que não fez por querer — afirmou convicto.

— É verdade. Ele caiu das minhas mãos e, tentando segurá-lo, eu o rasguei.

Abraçaram-se contentes, prometendo mútua amizade.

Depois das aulas, Marcelo levou Gabriel até sua casa e apresentou-o à sua mãe.

— Mamãe, este é o meu “amigo” Gabriel — falou, acentuando a palavra.

Muito satisfeita, pelo sorriso do filho a mãe percebeu que o mal-entendido terminara e que Marcelo havia aprendido a perdoar.

Autoria: Célia Xavier Camargo – Imagem meramente ilustrativa - Fonte: Internet Google.
 

sexta-feira, 1 de julho de 2022

O Circo Chegou

Geraldinho andava sem destino pelas ruas, chutando pedras.

Ao virar uma esquina, deparou com um grande cartaz colorido onde se via um leão e um domador.

— Oba! O circo chegou!

Geraldinho sempre tivera grande atração por circos, mas dificilmente aparecia algum em sua pequena cidade.

Imediatamente o menino revirou os bolsos da bermuda a ver se encontrava alguma moeda. Nada. Só algumas figurinhas, um pedregulho bem polido e um estilingue.

— Como vou fazer para ir ao circo?

Pensou um pouco e descobriu:

— Já sei. Vou pedir dinheiro para a mamãe.

Voltando para casa, Geraldinho falou com a mãe, que respondeu:

— Dou sim, meu filho. Antes, porém, preciso que você me ajude varrendo o quintal.

— Varrer o quintal? Trabalhar? Nem pensar!

Geraldinho foi até a mercearia da esquina, onde o seu José era muito seu amigo.

— Seu José, poderia emprestar-me uma moeda? Quero ver o espetáculo do circo e não tenho dinheiro.

— Como não, Geraldinho? Darei a moeda se você me fizer um favor. O empregado não veio hoje e tenho algumas entregas para fazer. Poderia fazê-las para mim?

O menino, muito desapontado, foi saindo de fininho:

— Infelizmente não posso, seu José. Tenho que estudar.

Voltando para casa, Geraldinho passou defronte da residência de dona Luzia, uma vizinha muito boa e simpática. Como ela estivesse ali fora varrendo a calçada, o menino atreveu-se a pedir-lhe uma moeda emprestada.

— Claro, Geraldinho! Dar-lhe-ei a moeda, mas estou tão atarefada hoje! Minha ajudante está doente e preciso de quem me ajude a arrancar o mato do jardim. Se você me fizer essa gentileza, prometo dar-lhe não uma, mas duas moedas.

Decepcionado, o garoto respondeu:

— Infelizmente, dona Luzia, agora não dá. Minha mãe está me esperando. Até logo! — e foi embora.

Geraldinho era assim mesmo. Não gostava de fazer nada e as pessoas conhecidas sabiam disso.

Aflito, o menino via o tempo passar sem conseguir recursos para ir ao circo.

À noite, aproximou-se do local onde o circo estava montado. A lona, toda esticada, parecia um balão; o nome, em letras grandes e luminosas, piscava, convidando-o a entrar. Mas, como?

Geraldinho pensou que, se tivesse feito algum serviço, qualquer serviço, teria a alegria de assistir ao espetáculo, mas agora era tarde. Essa seria a última apresentação, e, no dia seguinte, a lona estaria desarmada e os caminhões rodando pela estrada afora.

Sentou-se no meio-fio a observar o movimento de pessoas e carros que iam e vinham.

Nisso, uma senhora idosa escorregou e caiu no chão. A sacola que carregava abriu e o conteúdo se espalhou pela calçada.

Penalizado, o garoto levantou-se imediatamente e a socorreu.

— A senhora está bem, vovó? — perguntou atencioso.

— Estou bem, meu filho, não foi nada. Graças a Deus, não me machuquei. Ficarei dolorida por alguns dias, mas é só.

O menino ajudou-a a erguer-se e, depois, recolheu as coisas dela que tinham caído no chão, colocando tudo de volta na sacola.

Refeita do susto, a senhora pediu a Geraldinho que a ajudasse a atravessar a rua.

Percebendo que a sacola estava muito pesada, ele se prontificou:

— Farei mais, vovó. Vou acompanhá-la até sua casa e carregarei a bolsa para a senhora, pois está muito pesada.

— Quanta gentileza! Mas não quero atrapalhar, meu filho. Com certeza você tem alguma coisa para fazer...

Pensando no circo, o menino suspirou, afirmando:

— Não... nada tenho para fazer.

Geraldinho levou a senhora até o portão da residência e despediu-se. A velhinha abriu a bolsa e, pegando uma linda moeda, entregou-a ao garoto:

— Agradecida, meu filho. Olhe, isto é para você. Compre o que quiser. E venha visitar-me qualquer dia desses!

Surpreso, Geraldinho fitou a moeda depositada na palma da sua mão. Era exatamente o que precisava para comprar o ingresso do circo.

Quando menos esperava, recebeu o que tanto queria. Geraldinho compreendeu que, como ajudara a velhinha, também fora ajudado. Compreendeu também que, se desejamos alguma coisa, temos que nos esforçar para obtê-la. Que, na medida em que damos, recebemos em troca.

Assim, Geraldinho comprou o ingresso e, naquela noite, divertiu-se a valer assistindo ao espetáculo do circo.

Autoria: Célia Xavier Camargo – Imagem meramente ilustrativa - Fonte: Internet Google.
 

quarta-feira, 15 de junho de 2022

A Mentira

Embora não fosse rica, Clarinha era uma menina a quem nada faltava. Morava numa casa confortável, tinha uma família amorosa e, tudo o que desejava, na medida do possível, seu pai lhe comprava.

Mas Clarinha tinha um grande problema: a mentira.

Mentia a todo instante, para qualquer pessoa e em qualquer ocasião. De tanto mentir, Clarinha não conseguia mais parar. A mentira tornara-se um hábito em sua vida e quando menos se esperava, lá estava ela inventando coisas.

Na verdade, ela sentia verdadeiro prazer nisso e seus olhos brilhavam de satisfação ao inventar uma história.

Certo dia, Clarinha estava na escola quando um vizinho veio perguntar se ela sabia do paradeiro de seus pais.

Mais que depressa ela colocou a cabecinha avoada para funcionar:

— Ah! Sei sim! Papai e mamãe foram visitar meu tio João que está doente. Sabe? Ele está com um problema terrível no estômago e...

— E onde mora seu tio João?

— Mora na cidadezinha aqui perto. Não sei o endereço, mas é próximo ao supermercado.

O amigo de seu pai agradeceu e saiu rapidamente, aflito.

Quando Clarinha saiu da escola, após as aulas, foi para casa brincando pelo caminho, colhendo flores e parando para ver as vitrinas das lojas de brinquedos.

Chegando próximo à sua casa, percebeu um movimento incomum. Uma grossa cortina de fumaça cobria tudo e os vizinhos tentavam apagar o fogo inutilmente.

Viu seus pais suarentos e cansados, que faziam esforços para retirar seus pertences do interior da casa em chamas. Com os olhos arregalados de espanto, Clarinha perguntou:

— O que aconteceu, papai?...

Virando-se para ela, ele respondeu com severidade:

— Aconteceu, minha filha, que sua mãe esqueceu o ferro elétrico ligado e a casa pegou fogo. Nossos vizinhos perceberam que algo de estranho estava acontecendo pelo cheiro de queimado que se espalhava ao redor, e não sabendo onde nos encontrar, perguntaram a você.

Clarinha, muito vermelha, abaixou a cabeça envergonhada.

— Então, fomos visitar seu tio João que está doente?

Gaguejando, Clarinha procurou se desculpar:

— Pa... papai, desculpe. Não pensei que fosse causar algum problema!

— “Algum problema”? Minha filha, você percebe o que fez com sua mentira? Quase perdemos tudo! Bastaria que tivesse dito a verdade, isto é, que fomos ao sítio, pertinho da cidade, para que grande parte do problema fosse evitado. Embora desejosos de ajudar, nossos amigos não conseguiram abrir a porta, que estava trancada. Se tivessem nos encontrado antes, nada disso teria acontecido.

— Estou tão envergonhada!...

— Espero que isto lhe sirva de lição, minha filha. Graças a Deus, perdemos apenas bens materiais. Nossa família nada sofreu — completou com um suspiro de alívio.

Com os olhos cheios de lágrimas, Clarinha prometeu:

— Vou tentar me corrigir, papai. Nunca mais direi uma mentira. Daqui por diante quero dizer só a verdade.

Autoria: Célia Xavier Camargo – Imagem meramente ilustrativa - Fonte: Internet Google.
 

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Respeito Mútuo

O senhor Manoel era um homem muito bom e compassivo. Vivia do amanho da terra e suas tarefas eram executadas sempre com amor e devotamento. Ele tinha um filho que, não obstante a educação que lhe dava, era indisciplinado e agia sempre sem se preocupar com os outros, jamais cogitando se prejudicava alguém ou não.

O pai carinhoso tentava orientá-lo para o bem, afirmando-lhe que sempre devemos amar o próximo e respeitá-lo, como Jesus nos ensinou.

– E os animais? - perguntava Toninho, impaciente.

– Os animais também, meu filho. São nossos irmãos menores, credores de toda a nossa consideração e respeito, necessitando da nossa ajuda, tanto quanto nós não prescindimos do concurso deles para nossas tarefas do dia-a-dia.

Como estavam no campo, o pai fez uma pausa e exemplificou, apontando um animal atrelado ao arado.

– Veja o Gentil, por exemplo. É dócil e manso, nunca desdenhando o trabalho árduo do campo, e, nestes anos todos em que trabalhamos juntos, nunca o vi rebelde e indisciplinado. Jamais agrediu alguém!

– O Gentil ainda concordo, pois ele o ajuda, papai. Mas os outros!... – retrucou Toninho com desprezo.

– Os outros animais também ajudam, meu filho. Cada qual tem uma tarefa diferente, mas não menos importante. A Mimosa, nossa vaquinha, fornece o leite tão gostoso que bebemos toda manhã; as galinhas fornecem os ovos para a nossa alimentação e o nosso cão trabalha sem descanso, cuidando da defesa da nossa casa. Portanto, todos merecem nosso carinho e gratidão.

Mas Toninho ainda não estava convencido.

No dia seguinte, o senhor Manoel convidou Toninho para irem à cidade fazer umas compras. Toninho, eufórico com o passeio, aboletou-se na pequena carroça, feliz da vida.

Ao chegarem à cidade, enquanto seu pai entrou no armazém para fazer compras, Toninho ficou vendo o movimento da rua.

O tempo foi passando e seu pai não voltava. O menino foi ficando impaciente.

Olhou para Gentil, que permanecia parado, de olhos baixos, humilde, sem dar demonstrações de impaciência. Teve vontade de agredir o animal para ver sua reação.

– Vou dar uma volta. Veremos se ele é realmente obediente.

Toninho olhou ao redor e viu um pedaço de tábua, longo e fino, numa construção ali perto.

Pegou a ripa e, sem titubear, subiu na carroça e ordenou a Gentil que andasse. O animal, não reconhecendo a voz do dono a que estava habituado, não saiu do lugar.

Toninho, tomando da ripa, desceu com ela sobre o lombo do cavalo. Este relinchou de dor e, levantando as patas dianteiras, empinou perigosamente a frágil carroça, jogando Toninho ao chão.

Ao ouvir os gritos na rua, o Sr. Manoel acudiu correndo, encontrando o filho no solo, aos berros.

Ao saber do que acontecera, através de pessoas que assistiram ao fato, Manoel ficou indignado.

– Mas, papai, o senhor disse que o Gentil era manso e ele me derrubou! – gritava o garoto, surpreso.

E o pai, pegando o filho e levando-o até junto do animal, disse-lhe:

– E acha que ele poderia agir diferente? Veja o que você fez com o pobre animal!

Do lombo do cavalo escorria um filete de sangue. Toninho não percebera que na ponta da ripa existia um prego e fora a dor do ferimento que fizera Gentil reagir.

Aproveitando a oportunidade que se lhe oferecia, Manoel completou:

– Gentil é manso como um cordeiro. Apenas se defendeu de uma agressão, instintivamente. Todos nós, meu filho, recebemos de acordo com que tivermos feito. Se você tivesse lhe dado carinho e amor, teria recebido a retribuição correspondente. Como você agrediu, foi agredido. Entendeu?

Muito envergonhado, Toninho balançou a cabeça em sinal de assentimento e prometeu a si mesmo que nunca mais cometeria o mesmo erro.

Autoria: Célia Xavier Camargo – Imagem meramente ilustrativa – Fonte: Internet Google.
 

domingo, 15 de maio de 2022

A Galinha Insatisfeita

Em certo sítio bastante agradável, vivia uma galinha chamada Petita.

Normalmente, Petita estava de mau-humor, reclamando de tudo e de todos.

O poleiro era muito alto, o ninho muito duro, o milho não tinha gosto, as minhocas não eram macias, e a água não era limpa nem fresca.

Enfim, nada estava bom para dona Petita.

As outras aves do terreiro andavam sempre alegres e felizes, mas dona Petita já acordava de mal com a vida.

Se o galo cantava muito cedo seu có-có-ró-có-có, ela reclamava que ele não a deixava dormir; se ele cantava mais tarde para atender-lhe a vontade, ralhava com ele porque a fizera perder a hora de levantar. Quando os animais faziam festa no terreiro, ela reclamava do barulho; se não a convidavam para dançar e participar das brincadeiras, afirmava-se abandonada por todos.

Enfim, não sabiam mais o que fazer para agradá-la.

Até que um belo dia ela ouviu a patroa conversando com o empregado encarregado de tratar dos animais:

— Amanhã logo cedo quero que você pegue a Petita e a mate. Eu desejo comer galinha ensopada no almoço. E ela está bem gordinha, no ponto de ir para a panela.

A galinha, que ciscava ali perto, ao ouvir isso estremeceu. Queriam botá-la numa panela!

E Petita já começou a sentir os tormentos que a aguardavam.

Aquela noite, Petita não conseguia dormir. E quando, afinal, fechou os olhos, exausta, teve sono agitado. Sonhou que o empregado corria atrás dela e agarrava-a com força; já se sentia num tacho com água fervente, e depois alguém lhe tirava as penas, deixando-a peladinha, peladinha. Foi temperada com esmero, e ia ser colocada no fogo, quando ela acordou, suando frio e toda arrepiada.

A pobre Petita chorou... Chorou muito. Quem poderia ajudá-la? Ninguém gostava dela! Tinha certeza de que ficariam muito felizes com seu sofrimento e ninguém sentiria sua ausência.

O dia começou a clarear e Petita lamentou, lembrando-se que nunca mais ouviria o lindo co-có-ró-có-có do galo; que nunca mais botaria ovos no seu ninho, que agora reconhecia ser tão macio e quentinho; que não mais comeria o milho gostoso e as minhocas tenras; que nunca mais conversaria com ninguém, e percebeu como iria sentir saudades de tudo aquilo.

Só então Petita se deu conta de como sua vida sempre fora boa e agradável. Quanto tempo ela perdera se lastimando!

— Oh! Deus! Se eu pudesse voltar atrás, faria tudo diferente — pensava, suspirando profundamente.

O empregado já se aproximava para pegá-la, quando surgiu a patroa conduzindo seu filhinho pela mão.

O garoto, ao ver a intenção do empregado começou a chorar, gritando:

— Não! Não quero que matem a Petita! Não quero que matem ninguém!

E a mãe, surpresa com a atitude do menino, retrucou:

— Ora essa, meu filho! Galinha ensopada é tão bom!

— Não quero, mamãe. Prefiro comer batatas, se for para sacrificar alguém.

A mãe pensou... Pensou... Na atitude do filho e afinal concordou, dizendo-lhe:

— Tem razão, meu filho. Não devemos tirar a vida de ninguém. De hoje em diante todos os animais deste sítio estão a salvo e poderão viver tranquilos.

Petita respirou, aliviada. Estava salva! E devia sua vida justamente àquele garoto que ela sempre considerara tão desagradável, e que agora afirmava gostar dela!

Satisfeita e cacarejando feliz, Petita abraçou a todos no terreiro, e fizeram uma grande festa.

A partir desse dia, Petita transformou-se numa galinha alegre e satisfeita da vida, não se cansando de agradecer a bondade de Deus, que lhe dera uma nova oportunidade, pela mão de uma criança.

Autoria: Célia Xavier Camargo – Imagem meramente ilustrativa – Fonte: Internet Google.