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domingo, 15 de outubro de 2023

A Bola Colorida

Brincando no quintal, Susana, de seis anos, viu seu amigo Érico do outro lado da cerca.

Feliz por ver o vizinho, ela o chamou:

– Érico, venha brincar comigo! Acabo de ganhar uma linda bola colorida!

Com os olhos brilhantes de animação, o pequeno pulou a cerca baixa, indo ao encontro da amiguinha.

Susana segurava a bola com as mãos e o menino ficou encantado.

Era realmente uma bola de plástico de belo colorido, que chamaria a atenção de qualquer criança.

Puseram-se a brincar no gramado.

Érico tinha um cão. Um vira-lata caramelo e branco, vivo e inteligente, que gostava de brincar e de passear com eles.

De repente Bob, cachorro de Érico viu os dois brincando e não teve dúvida. Passou por um buraco na cerca e, latindo alegremente, avançou, querendo participar da brincadeira. Em disparada, pulou sobre a bola e suas garras afiadas a alcançaram no ar. Para espanto das crianças e do próprio cão, que não sabia o que estava acontecendo, a linda bola colorida caiu na grama, murcha, vazia, rasgada, enquanto o cachorro gania, frustrado.

Susana, surpresa, não queria acreditar no que estava vendo. Num momento, a bola estava no ar, cheia e linda; no momento seguinte, era um trapo qualquer, vazio e sem graça.

Revoltada por ter perdido o brinquedo novo, começou a chorar, acusando Érico pelo acidente:

– Buááá!... Está vendo o que você fez?

– Não tive culpa, Susana. Desculpe-me. Foi o Bob que quis brincar conosco. Coitado! Ele também não teve intenção de estragar sua bola. Veja como está triste!

– Não interessa. O cachorro é seu e, portanto, a culpa é sua. Quem mandou deixá-lo entrar no meu quintal? A partir de agora você não é mais meu amigo. Vá embora!

O menino e o cachorro estavam desolados. Érico tentou explicar, mas Susana não o deixou falar. Apesar das lágrimas do garoto e dos uivos do cão, a menina não reconsiderou sua atitude.

Virou-lhe as costas e entrou em casa muito zangada, enquanto Érico e o cachorro ficavam parados, tristes.

Susana, cheia de indignação, contou para a mãe o que tinha acontecido, pedindo-lhe que tomasse uma atitude contra o vizinho.

A senhora, serena, considerou:

– Minha filha, entendo que você esteja lamentando a perda da sua bola. Contudo, é só um brinquedo, e, pelo que entendi, a culpa não foi de ninguém. Seu pai lhe comprará outra, fique tranquila.

– Não quero! Quero aquela bola! Nunca mais falo com Érico. Nunca mais quero vê-lo!

A mãezinha calou-se, compreendendo que não adiantaria falar mais nada naquela hora.

Os dias se passaram. Susana, da janela da cozinha, via Érico encostado na cerca, tristinho de fazer dó. Porém não amolecia o coração.

Certo dia, uma semana depois, a mãe lhe disse:

– Minha filha, vejo que você anda meio chateada, não brinca mais...

– Não tenho vontade, mamãe. Sozinha não tem graça.

– Chame o Érico. Ele está lá do outro lado da cerca – sugeriu.

– Não. Não quero.

– Ele não é seu melhor amigo? Vocês sempre se deram tão bem!

– Era! Agora não é mais.

A mãe pensou um pouco, chamou a filha, sentou-a no colo com carinho, e considerou:

– Minha filha, amizade é um tesouro de valor incalculável. E você está perdendo esse tesouro por uma colorida bola de plástico, frágil, que estragou na primeira brincadeira? Pense bem! Bola igual àquela você encontra em qualquer loja, mas uma amizade valiosa, não.

Susana ficou pensativa por alguns instantes. Depois, decidiu-se.

Abriu a porta e voou para o quintal. Aproximou-se da cerca, convidando:

– Vamos brincar?

O garoto, meio sem jeito, perguntou:

– Não está mais zangada comigo? Afinal, por minha culpa perdeu sua bola nova. Mas, não se preocupe. Falei com minha mãe e ela vai lhe comprar outra.

Susana sorriu, já esquecida do incidente:

– Isso não tem importância. Sua amizade vale muito mais!

Autoria: Célia Xavier Camargo
Imagem meramente ilustrativa – Fonte: Internet Google.
 

domingo, 1 de outubro de 2023

Lágrimas de Arrependimento

Ciro gostava muito de brincar no quintal de sua casa. À sombra acolhedora de uma grande árvore, ele passava horas, distraído com seus brinquedos.

Era um lugar fresco e agradável, onde a luz do sol filtrava-se suavemente, e onde, muitas vezes, ele até adormecia com a cabeça apoiada em suas raízes possantes, cansado de brincar.

A árvore era uma linda mangueira e dava frutos saborosos, que Ciro colhia com as próprias mãos ao sentir fome.

Apesar de tudo isso, Ciro era um menino cheio de vontades, e certo dia começou a implicar com a árvore, desejando cortá-la.

Chegando até sua mãe, ele disse:

— Mãe, eu quero que a senhora mande cortar a mangueira.

Surpresa, a mãe retrucou:

— Por que, meu filho? Você sempre gostou tanto dela!

Batendo o pé no chão o garoto respondeu:

— Não gosto mais, ora essa. Ela toma muito espaço, faz muita sombra e está atrapalhando no quintal.

Espantada, a senhora considerou:

— Pense bem, meu filho. As árvores devem ser preservadas, pois são muito úteis e levam anos para crescer e produzir. Essa nossa mangueira dá mangas deliciosas e em seus galhos acolhedores os pássaros fazem seus ninhos, e...

— Não adianta, minha mãe! — interrompeu-a o garoto caprichoso. — Quero que a ponha abaixo.

Quando o pai chegou, após o serviço, foi informado da exigência do filho.

Novo diálogo se estabeleceu tentando fazê-lo desistir da ideia. Tudo em vão. Não valeram conselhos e ponderações, argumentos e reprimendas. Ciro estava irredutível.

Tanto ele gritou, chorou e reclamou que seus pais, apesar de considerarem um absurdo o seu desejo, resolveram fazer-lhe a vontade.

Afinal, era filho único! E o que é que ele pedia que os pais não lhe davam?

No dia seguinte, o pai mandou cortar a bela árvore com o coração amargurado.

Ciro estava feliz. A cada golpe desfechado no tronco ele sorria. Afinal, o homem deu por terminado o serviço. Da bela mangueira só restara um toco.

Ciro deu-se por satisfeito e foi brincar.

Contudo, o sol muito forte doía-lhe os olhos e o calor era excessivo. Em poucos minutos estava cansado e todo cheio de suor. Resolveu entrar.

A mãe, que o observava de longe, perguntou:

— Não vai brincar mais, Ciro?

Desapontado, o garoto respondeu:

— Estou cansado. O sol está muito quente hoje.

— Quer comer alguma coisa? — tornou a mãe, carinhosa.

— Sim, mamãe. Gostaria de chupar uma manga.

— Ah, meu filho, não temos mais mangas. Esqueceu que a mangueira foi destruída? As últimas que sobraram dei para o jardineiro levar!

Despeitado, Ciro sentou-se nos degraus da porta da cozinha, olhando o quintal que lhe parecia tão estranhamente vazio agora.

Observou muitos passarinhos que pareciam voar a esmo, sem lugar para ficar.

Ciro lembrou-se que tinha visto, nos galhos derrubados, vários ninhos e compreendeu que aqueles pássaros haviam perdido suas casinhas. Também notou que estavam famintos, procurando migalhas no chão para comer.

Com o passar dos dias, Ciro foi ficando cada vez mais arrependido da decisão que tomara.

Não brincava mais no quintal. Tudo ficara sem graça, não tinha mais árvore para subir, o sol era inclemente e queimava tudo.

Suspirando, um dia aproximou-se do toco, agora escuro e ressequido e, abraçando o que sobrara da mangueira, deu vazão à sua tristeza. Em lágrimas, ele começou a dizer.

— Estou muito arrependido, minha amiga. Você não sabe a falta que me faz. Não sabia que você era tão importante para nós e agora nada mais tem graça. Não tenho mais sombra para brincar e o sol me queima. Os passarinhos ficaram sem saber o que fazer, como eu, e foram embora, em busca de outros galhos acolhedores. Ah! Se eu pudesse voltar atrás! Agora compreendo porque dizem que é preciso cuidar da ecologia, preservando as árvores. Sem vocês, tudo fica árido e feio...

Ciro chorou... chorou muito, abraçado aos restos da sua velha companheira.

Suas lágrimas de arrependimento, contudo, umedeceram o tronco ressequido e, alguns dias depois, ao aproximar-se dele, Ciro teve uma grande surpresa.

Do meio do tronco, brotos frágeis e verdinhos surgiam como esperança de uma nova vida em seu âmago.

Cheio de alegria, Ciro percebeu que o milagre da vida se repetia, e que a árvore voltaria a crescer, com a bênção de Deus!

Autoria: Célia Xavier Camargo
Imagem meramente ilustrativa – Fonte: Internet Google.
 

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

O Medo

Glorinha saiu de casa para ir à escola como fazia todos os dias. E aquele parecia ser um dia como todos os outros. Mas não era.

No trajeto, Glorinha percebeu que alguma coisa estava acontecendo. Nas ruas, as pessoas estavam agitadas, falavam alto e pareciam atemorizadas.

Intrigada, a menina desejou saber qual a novidade. Ao passar diante da banca de jornais, viu duas mulheres conversando e, curiosa, parou para escutar. Uma dizia à outra:

— Já se viu uma coisa dessas? Agora toda a cidade está em perigo!

— Mas, como foi que ele escapou? — perguntava a outra.

— Sei lá! Com certeza algum descuidado deixou aberta a porta da jaula e ele...zás! Fugiu!

Quem teria fugido? Glorinha resolveu perguntar ao dono da banca, um velhinho muito simpático com quem sempre conversava.

— Seu Antônio, “quem” foi que fugiu?

O velhinho arregalou os olhos, levantou as sobrancelhas e, ajeitando os óculos na ponta do nariz, informou:

— Você não sabe, Glorinha? Pois foi um leão! Escapou do circo que chegou ontem na cidade.

— Ah! Um leão?!... E ele é grande? — quis saber a menina.

— Se é grande? Dizem que é enorme! E muito feroz também. Tenha cuidado ao andar pela cidade.

Agradecendo o conselho, Glorinha continuou seu caminho. Agora, informada do que estava acontecendo, entendia melhor as conversas que ouvia de passagem.

Encontrou dois homens e um deles dizia:

— Olha, mandei minha mulher trancar toda a casa e não permitir que nossos filhos saiam para a rua. Os meninos não irão às aulas enquanto a fera não tiver sido capturada.

E o outro concordava plenamente:

— Tem toda razão. Certa vez ouvi contar que um animal escapou de um circo e feriu duas pessoas. Não podemos facilitar. Olha, já preparei até minha espingarda. Se o bicho aparecer, prego fogo!

Cada vez mais assustada, Glorinha chegou à escola. Ali os comentários eram os mesmos: giravam em torno do terrível leão que escapara do circo.

Preocupadas, as mães pediam às professoras que tomassem todo o cuidado com seus filhos. Outras eram de opinião que o melhor seria fechar a escola, dispensando os alunos das aulas naquele dia, ou até que fosse solucionado o problema.

As crianças estavam apavoradas e ouviam-se gritos e choros por toda parte. Enfim, o ambiente estava um verdadeiro caos!

A professora de Glorinha, moça tranquila e de bom-senso, reunindo os alunos na classe considerou, serena:

— O melhor que nós temos a fazer é manter a calma. A confusão apenas complica e o medo tem terrível poder sobre as pessoas, impedindo que se possa analisar e julgar com acerto. Não se preocupem. Fiquem tranquilos que nada nos acontecerá. Estamos seguros neste prédio e, em qualquer circunstância, devemos confiar em Deus, que nunca nos desampara. Além disso, nem sabemos se tudo isso é verdade!

Vendo que os alunos estavam mais calmos, a professora pediu que abrissem o livro, informando:

— Vamos à lição do dia.

Após as aulas, ao sair da escola Glorinha notou que a situação estava pior ainda. Agora, a confusão era geral. Carros da polícia percorriam as ruas da cidade orientando as pessoas para que permanecessem em suas casas. O corpo de bombeiros fora acionado e grupos de cidadãos, armados, procuravam pistas do terrível animal em todos os lugares da cidade e nos arredores, em defesa da população.

Chegando em casa, Glorinha encontrou a mãe toda apavorada, tremendo de medo.

— Graças a Deus você chegou, minha filha. Ocupada com o serviço doméstico, somente agora liguei o rádio e ouvi a notícia. Você está bem? O leão não te ameaçou?

Glorinha, lembrando o que a professora tinha dito, falou:

— Mamãe! Claro que estou bem! Além disso, minha professora disse que é importante manter a calma e confiar em Deus. Nada devemos temer.

Como se fosse uma confirmação daquelas palavras, de repente elas ouviram um miado estranho na porta da cozinha. Pensando que era o gato da vizinha, Glorinha correu a abrir a porta, que a mãe havia trancado.

Com surpresa, encontrou escondido num canto da escada uma coisa fofa e peluda que miava cheia de medo. Chegando mais perto, a menina reconheceu, naquele bichinho inofensivo, trêmulo e faminto, um filhote de leão.

Pegando-o no colo, chamou a mãe e exclamou:

— Veja mamãe! Aqui está o terrível e feroz leão que faz a cidade toda tremer! Parece que ele está mais assustado do que nós!

Dando uma sonora risada, completou satisfeita e aliviada:

— O que o medo pode fazer com as pessoas!

Em pouco tempo, a casa de Glorinha estava repleta de gente que viera ver o filhote de leão. A polícia, a imprensa, os bombeiros, os vizinhos, populares curiosos e até o prefeito municipal, todos queriam ver de perto o animalzinho. E, ao vê-lo, sentiam uma enorme vergonha do alarido todo que fora feito em torno do fato.

Chegou o dono do circo, constrangido, e o prefeito exigiu uma explicação:

— Por que não esclareceu que o animal que fugiu do seu circo era um pequeno e inofensivo filhote de leão?

Coçando a barba, o astuto proprietário justificou-se:

— Bem, achei que era uma excelente propaganda para o meu circo. Pelo menos, a cidade inteira ficou sabendo que chegamos, não é?

Autoria: Célia Xavier Camargo
Imagem meramente ilustrativa – Fonte: Internet Google.
 

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

O Salvamento

O dia estava lindo. Um sol radioso brilhava no céu sem nuvens.

Bruno resolveu ir à praia brincar e jogar bola com uns amigos.

Duas horas depois, cansados da brincadeira, os garotos pararam para descansar um pouco.

De repente, Bruno olhou para o mar e viu alguém que parecia estar em dificuldades.

— Socorro! Socorro! Acudam! — gritava o rapazinho.

— É o Zeca! — disse alguém — Conheço aquele rapaz.

Naquela praia não havia guarda-vidas. Bruno, apavorado, olhou para todos os lados, esperando que alguém se jogasse na água para salvar o garoto.

Todavia, os adultos que ali estavam não tomavam nenhuma atitude. Ficaram assustados e sem ação, apenas olhando fixo para o menino que gritava por socorro.

Bruno sentiu que precisava fazer alguma coisa. Era preciso salvar aquele rapazinho, de qualquer jeito.

Ele sabia nadar um pouco, porém não tinha muito fôlego e também não ignorava que para retirar de dentro da água alguém que estava se afogando, era preciso muita força e destreza, caso contrário correria o risco de também morrer afogado.

Mas alguém tinha que fazer alguma coisa. Pesando os prós e os contras, resolveu arriscar, pensando:

— Eu confio em Deus. Ele vai me ajudar!

Jogou-se na água, nadando rápido contra as ondas, indo ao encontro do Zeca.

Estava já cansado, quando, ao olhar para trás, viu que diversos homens igualmente haviam se jogado na água para tentar salvar o garoto e, rapidamente, o estavam alcançando.

Mais tranquilo Bruno diminuiu o ritmo das braçadas, e foi com imenso alívio que viu os homens passarem por ele, aproximando-se do rapazinho em dificuldades.

Dentro em pouco, a turma do salvamento chegou à praia trazendo o menino, desacordado.

Após os primeiros-socorros, o garoto voltou a si, começando a respirar novamente e jogando para fora a água que havia engolido.

Foi uma alegria geral! Todos estavam muito felizes e agradecidos a Deus por terem salvo uma vida.

Recuperado, Zeca agradeceu a seus salvadores:

— Muito obrigado. Se não fosse a coragem de vocês, eu teria morrido.

Um dos homens respondeu, envergonhado:

— Não agradeça a nós, garoto. O corajoso realmente foi esse menino aqui, o Bruno, que, sem pensar na sua própria segurança e nos riscos que corria, jogou-se no mar para salvar você.

Zeca olhou para Bruno com os olhos cheios de lágrimas:

— Bruno, você é incrível! Nem sei como lhe agradecer. Mas, diga-me, você acha que conseguiria me salvar? Sou bem maior do que você e iria dar trabalho! Como você iria me carregar?

Bruno coçou a cabeça, deu um sorrisinho e respondeu:

— Na verdade não sei, Zeca. Porém, tinha muita confiança em Jesus e a esperança de que outras pessoas também seguissem meu gesto e se jogassem na água. Foi o que aconteceu, graças a Deus!

Os demais estavam emocionados diante do gesto corajoso de Bruno. O menino se sacrificara para dar o exemplo a todos os que estavam apenas observando, sem ação.

E, com o amparo de Deus e a coragem de Bruno, uma vida fora salva.

Autoria: Célia Xavier Camargo
Imagem meramente ilustrativa – Fonte: Internet Google.
 

terça-feira, 15 de agosto de 2023

O Recém Nascido

Em certa região bem distante, morava um homem muito pobrezinho. Um dia, andando pela mata à procura de lenha para vender, à margem do caminho encontrou uma cesta e, dentro dela, viu uma criança.

Ouviu o choro fraco do recém-nascido, que estava cuidadosamente embrulhado numa manta e, cheio de compaixão, pegou o pequenino aconchegando-o ao peito.

De coração generoso, imediatamente resolveu levá-lo para casa. Preocupava-o, porém, a pobreza extrema em que vivia. Como cuidar do bebê, prover-lhe as necessidades, ele, a quem muitas vezes faltava o que comer? Quem sabe alguém com mais recursos, que passasse por aquela estrada, poderia ficar com ele e dar-lhe uma vida melhor?

Contudo, ouvindo os vagidos da criança que o fitava com olhinhos vivos, comentou alto:

— Não posso abandoná-la aqui exposta aos perigos. Deus vai me ajudar! Além disso, sempre quis ter um filho. Melhor dividir com esta criança a minha pobreza do que deixá-la entregue a destino incerto.

Como se entendesse a decisão que o lenhador tomara, o recém-nascido se aquietou e dormiu tranquilo.

Chegando em casa, o homem abriu a porta e disse:

— Mulher, veja o que eu trouxe!

A esposa, curiosa, aproximou-se e abriu o embrulho que o marido trazia nos braços. O recém-nascido dormia serenamente, e seu coração se enterneceu. Cheia de alegria, exclamou:

— O filho que sempre quisemos ter! Deus ouviu nossas preces!

Ao mesmo tempo, consciente da miséria em que vivia, indagou, aflita:

— Mas, como vamos cuidar do bebê, João? Não temos comida nem para nós! E uma criança precisa de cuidados especiais!

Confiante, o marido respondeu:

— Não se aflija, Ana. Se o Senhor nos mandou este bebê, certamente nos dará os meios para sustentá-lo.

Era um menino e deram-lhe o nome de Benvindo.

A partir desse dia, tudo mudou. A casa, antes triste e sem vida, tornou-se alegre e cheia de risos.

João, mais estimulado ao trabalho, agora não se limitava a procurar lenha no mato para vender. Buscava outras fontes de renda.

Sabendo da criança, um sitiante das redondezas vendeu-lhe uma cabra por preço módico que João poderia pagar como pudesse. Assim estava garantido o leite do bebê.

A vida estava mudando. Mas isso não bastava. O que mais poderia fazer?

João, na soleira da porta da casa, olhava o terreno que se estendia à sua frente e pensou que poderia cultivá-lo. Assim, teriam verduras, legumes e talvez algumas frutas.

Não pensou duas vezes. O homem que lhe vendera a cabra arrumou-lhe também sementes e mudas diversas, satisfeito por vê-lo interessado no trabalho.

João pegou o machado e derrubou algumas árvores, limpando o terreno. Depois, fez canteiros e jogou as sementes no solo. Plantou as mudas e cuidou delas com muito amor.

Logo, tudo estava diferente. À medida que Benvindo crescia, forte e saudável, as plantas igualmente se desenvolviam na terra fértil.

Dentro de pouco tempo, no terreno, antes inculto e abandonado, os legumes e as verduras surgiam, encantando a vista e trazendo fartura. As árvores frutíferas logo começaram a produzir: agora tinham bananas, laranjas, maçãs, mangas e limões à vontade. Como a produção fosse grande, além de terem alimentos, João passou a vender as frutas, os legumes e as verduras excedentes.

Com o coração alegre pelas novas funções como mãe, transformando sua casa num lar, Ana passou a cuidar com mais carinho da moradia, a exemplo do marido, plantando um jardim e cultivando flores que enfeitavam e perfumavam o ambiente.

Benvindo crescia aprendendo a trabalhar com o pai. Era um menino vivo e inteligente. Ainda pequeno, João contou a ele como o encontrara abandonado e da satisfação de trazê-lo para casa, afirmando sempre:

— Você é nosso filho muito querido. Foi Deus quem o mandou para nós.

O tempo passou. Benvindo começou a frequentar a escola, na aldeia. João e Ana faziam questão absoluta que o filho não fosse um analfabeto, como eles.

Mas, apesar de se considerarem ignorantes, souberam dar ao menino noções realmente importantes para sua vida, como amor a Deus e ao Evangelho de Jesus. E ele cresceu sabendo valorizar a honestidade, o trabalho, o respeito ao próximo, o perdão das ofensas e, acima de tudo, o bem.

Já moço, Benvindo foi morar numa cidade grande para continuar os estudos. Terminando o curso, com grande satisfação dos pais, ele retornou para casa e disse, emocionado:

— Papai, não sei como agradecer tudo o que fizeram por mim. Criança abandonada, poderia ter morrido de fome e de frio, mas graças a sua bondade, vim para esta casa como filho que tanto tenho recebido de ambos. Tudo o que sou hoje devo a vocês. Muito obrigado!

Enxugando as lágrimas, Benvindo fitou o pai, já velhinho e encarquilhado, abraçando-o com profundo amor.

Comovido, João pegou o filho pela mão e levou-o para fora de casa, onde se descortinava lindo panorama: bem próximo, o jardim cheio de flores coloridas e perfumadas; um pouco mais além, do lado esquerdo, as árvores do pomar, carregadas de frutos. Do lado direito, a perder de vista, a horta, onde as verduras e legumes produziam fartamente.

— Está vendo tudo isso, meu filho?

— Sim, meu pai. É uma imagem que não me canso de admirar. Como é bonita a nossa propriedade!

— Pois bem. Nada disso existia antes de você vir para cá. Eu e sua mãe, envelhecidos e cansados da vida, não tínhamos disposição para lutar. Passamos até fome.

Fez uma pausa, limpou uma lágrima, e prosseguiu:

— Quando você chegou, meu filho, encheu-nos de esperança e de novo ânimo. Precisávamos alimentá-lo, vesti-lo, cuidá-lo. Para isso, tive que trabalhar muito. Mas o resultado aí está.

Abraçando o filho com imenso carinho e justo orgulho, apontou as terras cultivadas:

— Assim, devemos tudo isso a você! E devo mais ainda. Devo a você, meu filho, a oportunidade e a bênção de ser chamado de PAI!

A mãe, que chorava comovida, aproximou-se também e permaneceram abraçados por longo tempo.

Autoria: Célia Xavier Camargo
Imagem meramente ilustrativa – Fonte: Internet Google.
 

terça-feira, 1 de agosto de 2023

A Sementinha

Beto estava muito triste. Seu cão ficou doente e, apesar de todos os cuidados, morreu em seus braços sem que ele nada pudesse fazer para impedir.

Já havia se passado uma semana, mas Beto continuava inconsolável. Não se conformava com a morte do cãozinho Vira.

Lembrava, com saudade, do dia em que encontrara Vira, ainda um filhote, perdido na rua perto de sua casa. Tinha aspecto de cão abandonado. Seu pelo era ralo e feio, estava muito magro e gania de fazer dó. Tinha fome, certamente.

Apesar da feiura, Beto sentiu imediata simpatia por ele. Tomou-o no colo e, quando o cãozinho lambeu seu rosto, já estava decidido a levá-lo para casa.

Recebeu o apelido de Vira, de tanto os familiares caçoarem do pobre e feio filhote, dizendo que ele era um legítimo exemplar da raça dos Vira-latas. Assim, apesar do nome que Beto lhe dera, Rex, passou a ser chamado carinhosamente de Vira.

Desde esse dia, tornaram-se inseparáveis. Só não estavam juntos quando Beto ia para a escola e durante a noite, pois a mãe proibira, terminantemente, que o animalzinho dormisse no quarto, como era desejo do menino.

O resto do dia eles divertiam-se a valer: brincavam de bola, apostavam corridas, passeavam na calçada, ou, simplesmente, rolavam na grama.

Vira transformara-se num belo cachorro. Limpo e bem cuidado, em nada lembrava o filhote magro e feio que Beto encontrou um dia.

Mas agora Vira estava morto. Beto sentia muita falta da sua companhia e vivia a chorar pelos cantos. A mãe não sabia mais o que fazer para alegrá-lo.

Um dia, ela teve uma ideia. Apanhou uma semente de flor e disse:

— Meu filho, quer ajudar-me a plantar esta semente?

Apesar de não ter vontade nenhuma, Beto aceitou, apenas para agradá-la.

Dirigiram-se para o jardim e a mãe foi explicando como o serviço deveria ser feito:

— Primeiro você fará um buraco no solo. Depois depositará a semente na cova e cobrirá com um pouco de terra. Esta semente, meu filho, lançada ao solo, irá morrer e, depois de algum tempo, germinará.

O menino, que ainda era pequeno, não entendeu direito e perguntou:

— Como assim?!...

— Bem, meu filho, tudo o que existe na face da Terra, e que tem vida, precisa morrer para nascer de novo, isto é, voltar a viver. Como isso acontece, só Deus, que é a Suprema Sabedoria e o Criador de tudo o que existe, o sabe. Mas assim acontece com as plantas, com os animais e com as pessoas, para que todos evoluam, tornando-se cada vez melhores!

Beto ouviu muito sério e compenetrado. Em seguida, indagou:

— Isso vai acontecer também com o Vira?!...

— Sem dúvida! Só que a sementinha dele, que é o espírito, renascerá de uma outra mãe, em outro local.

— Ah!... E eu poderei reconhecê-lo?

— Quem sabe? Se nascer aqui por perto, isso é possível! Ele poderá apresentar o mesmo jeitinho, as mesmas manias, as mesmas tendências.

— Então, se algum dia eu reencontrar o Vira, vou reconhecê-lo, mamãe, e tenho certeza de que ele também vai se lembrar de mim.

Beto calou-se, mas a mãe percebeu que, ao deixarem o jardim, ele já estava diferente, menos triste e bem mais animado.

A partir desse dia, Beto cuidou com muito carinho da sementinha que tinha lançado a terra. Cercava-a de atenções, não deixando faltar água. Ele passava horas sentado no chão, ali perto, pedindo a Jesus que permitisse à semente germinar, enquanto observava cuidadosamente o local onde a depositara.

Até que, alguns dias depois, cheio de alegria e entusiasmo ele correu para a mãe, agitando os braços e gritando:

— Ela brotou, mamãe! Ela brotou! A sementinha está viva de novo! Viva!...

A mãezinha deixou os afazeres domésticos e foi até o jardim. Os olhos do menino estavam brilhantes de emoção, e ela percebeu como tudo aquilo era importante para seu filho.

Envolveu-o carinhosamente num abraço, afirmando:

— Você cuidou muito bem da semente que lhe confiei, meu filho, e Deus atendeu às suas preces. Parabéns!

Desse dia em diante, acompanhando o desenvolvimento da plantinha, Beto enchia-se cada vez mais de esperança, de confiança e de gratidão a Deus, Supremo Doador da Vida.

Logo, a plantinha cobriu-se de lindas e perfumadas flores, que Beto não se cansava de admirar e mostrar para as outras pessoas, cheio de justa satisfação, dizendo:

— Fui eu que plantei!

Agora, a ideia da morte não lhe causava mais tristeza ou medo. Ao contrário, sentia-se tranquilo e confiante, compreendendo que a morte era apenas uma etapa natural na vida de todos os seres da Criação, que morreriam e voltariam a nascer, muitas e muitas vezes, para atingir o sublime objetivo da evolução.

Autoria: Célia Xavier Camargo
Imagem meramente ilustrativa – Fonte: Internet Google.
 

sábado, 15 de julho de 2023

A Valorização do Esforço

Um pai tinha três filhos. Desejando ensiná-los a serem trabalhadores e diligentes, de forma que pudessem aproveitar as oportunidades que lhes fossem concedidas durante a existência, um dia chamou-os e lhes disse:

— Meus filhos, vou viajar. Antes, porém, vou dar-lhes algumas moedas para que vocês as utilizem da melhor maneira possível, de forma a fazê-las render. Em uma semana estarei de volta e quero ver o que cada um conseguiu fazer com o dinheiro que lhes dei.

Chamou um filho e deu-lhe cinco moedas, duas moedas ao outro e uma moeda ao terceiro filho.

Os garotos ficaram muito felizes com seu tesouro.

O filho que ganhara cinco moedas, após muito pensar, resolveu comprar material e fazer pipas para vender. Assim, trabalhou bastante e, quando ficaram prontas, vendeu todas elas rapidamente. Dessa forma, conseguiu recuperar o que havia gasto e ganhar mais cinco moedas, ficando com dez.

O garoto que ganhara duas moedas pensou bastante, pois não tinha muito dinheiro. O que fazer? Afinal, resolveu.

Foi até o supermercado, comprou pacotinhos de suco e os preparou. Depois, arrumou uma barraquinha e vendeu copos de suco para os amigos.

Assim, recuperou o que havia gasto e ganhou mais duas moedas, ficando com quatro.

O terceiro filho, que recebera uma única moeda, colocou-a no seu cofrinho, com medo de perdê-la, e não fez nada.

Uma semana depois o pai voltou e pediu contas aos filhos das moedas que lhes entregara.

O que havia ganho cinco moedas, entregou dez ao pai, explicando, todo entusiasmado, o que fizera.

— Muito bem, meu filho! Gostei de ver o seu esforço. Parabéns!

O segundo filho, que ganhara duas moedas, entregou as quatro moedas ao pai e, muito animado, explicou o que tinha feito para consegui-las, recebendo os cumprimentos:

— Parabéns, meu filho! Você soube fazer seu dinheiro render de forma útil.

O terceiro filho, que recebera uma única moeda, aproximou-se um pouco envergonhado ao ver o relato dos irmãos e justificou-se, devolvendo a moeda ao pai:

— Aqui está sua moeda, meu pai. Fiquei com medo de perdê-la e guardei-a nesse cofrinho para devolvê-la ao senhor quando voltasse.

O pai, muito desapontado, falou com severidade:

— Você foi preguiçoso, meu filho, e não mereceu a moeda que lhe confiei. Por isso, como você a devolveu sem fazer nada, vou entregá-la a um de seus irmãos que saberá usá-la de forma útil.

E assim, corando de vergonha, o menino perdeu a oportunidade que o pai lhe concedera.

Também assim acontece conosco na vida. Deus, que é nosso Pai, nos concede “talentos” que são oportunidades para algo fazermos de bom na vida, e que precisamos fazer com que frutifiquem a benefício da nossa evolução, ajudando ao nosso próximo e a nós mesmos.

Autoria: Célia Xavier Camargo
Imagem meramente ilustrativa – Fonte: Internet Google.
 

sábado, 1 de julho de 2023

Receita Milagrosa

Ricardo, de oito anos, era o terror do seu bairro.

Onde estivesse, estaria criando problemas. Rebelde e irreverente, ele brigava com todo mundo.

Na escola, os colegas evitavam se aproximar dele. Mas assim mesmo, onde passava deixava descontentes: mexia com um, batia em outro, xingava um terceiro.

Na sala de aula, a professora escutava um grito, e lá vinha reclamação:

— Professora, o Ricardo jogou meus livros no chão!

— Professora, o Ricardo roubou meu lanche!

— Professora, olha o Ricardo! Está me provocando!

Era assim o tempo todo. Uma reclamação atrás da outra. Até que a professora perdia a paciência, colocava o menino para fora da sala e o mandava à diretoria.

Na rua era o mesmo problema. Ricardo não conseguia jogar bola em paz com os vizinhos. O jogo sempre acabava em briga.

Em casa, então, nem se fala! Ricardo entrava dando pontapé na porta, batendo nos irmãos menores, desrespeitando a mãe, reclamando de tudo, quebrando os utensílios domésticos. Resultado: acabava levando uma surra do pai, que estava sempre bêbado.

Ninguém aguentava mais. Era preciso fazer alguma coisa!

A professora, preocupada, resolveu mudar de tática. Assim, certo dia, após as aulas, ela o chamou:

— Ricardo, quer limpar o meu jardim para mim?

O menino aceitou, satisfeito. Acompanhou a professora até a casa dela e foi logo perguntando pela enxada.

— Depois você começa o serviço, Ricardo. Antes, vamos almoçar!

O garoto sentou-se e comeu com vontade. Ao terminar disse:

— Puxa! Faz muito tempo que não como tão bem.

Obrigado, dona Neuza. Lá em casa não é todo dia que tem comida. E, quando tem, a mãe divide um pouco para cada um.

A professora olhou o menino, cheia de compaixão. Jamais pensou que a família dele fosse tão pobre.

— E seu pai, Ricardo, o que ele faz ?

— Fica em casa o tempo todo, bebendo. Está desempregado há meses. Quando saio da escola, ele me obriga a pedir esmolas na rua. Com o dinheiro que eu ganho, que nos faz tanta falta, ele compra bebida e se tranca no quarto. Se uma das crianças fizer qualquer barulho, ele fica violento. Dá uma surra em todo mundo.

— Ah!... E sua mãe?

— Minha mãe trabalha muito. É lavadeira e ganha uma miséria. Ela precisa cuidar de meus quatro irmãos menores e não tem tempo para mim. Acha que já sou bem crescido e que posso cuidar de mim mesmo — respondeu tristonho.

A professora sentiu um nó na garganta e seus olhos umedeceram.

Ricardo foi para o jardim e pôs-se a arrancar o mato que crescia no meio da grama.

Mais tarde, dona Neuza ofereceu-lhe um lanche e, quando ele terminou o serviço, deu-lhe dez reais.

Ricardo ficou eufórico. Nunca ganhara tanto dinheiro!

— Obrigado, professora. Vou passar no supermercado e levar comida para casa. Mamãe ficará contente!

Dona Neuza sentiu-se emocionada com a atitude do menino, que mostrava preocupação pela família.

Percebeu que o problema dele era um só: Falta de amor! Ele se sentia rejeitado, tinha necessidade de amor e fazia tudo para chamar a atenção das pessoas.

Desse dia em diante, dona Neuza passou a tratá-lo de maneira diferente. Todas as manhãs dava-lhe um abraço, um beijo, e dizia-lhe o quanto gostava dele.

Durante as aulas, quando terminava os deveres, ela demonstrava sua satisfação, acompanhada de um sorriso:

— Você está indo muito bem, Ricardo. Ótimo! Continue assim. Parabéns!

Às vezes convidava Ricardo para almoçar e encarregava-o de pequenos serviços, que remunerava. Dava-lhe roupas, calçados, brinquedos e livros.

Até o levava para passear, ocasiões em que lhe pagava um sorvete, um sanduíche ou um doce.

O menino estava feliz. Sentia-se importante. Sentia-se amado.

A professora foi mais longe. Visitou a casa de Ricardo e conversou com a mãe dele, dona Cida.

Sabendo das dificuldades da família, arrumou um emprego para o pai, chamando-o à responsabilidade. Informada de que dona Cida sabia costurar, conseguiu lhe uma máquina de costura. Assim, ela ganharia mais, trabalharia menos e poderia dispor de mais tempo para cuidar dos filhos.

Aos poucos, as coisas foram entrando nos eixos. Algum tempo depois, todos podiam notar a mudança que se operara no comportamento de Ricardo.

Andava mais bem arrumado, estava mais alegre, tranquilo, não brigava com ninguém e fazia as lições com capricho. Nada de reclamações!

As pessoas, curiosas, perguntavam à professora:

— O que você fez? Como conseguiu mudar o comportamento de Ricardo em tão pouco tempo? Que receita milagrosa foi essa que você usou?

E a professora respondia com um sorriso:

— A receita milagrosa? É de Jesus: Um pouco de amor!

Autoria: Célia Xavier Camargo
Imagem meramente ilustrativa – Fonte: Internet Google.
 

quinta-feira, 15 de junho de 2023

A Pesca Inesperada

Antônio morava com a família numa pequena aldeia à beira-mar e seu pai, Pedro, era pescador.

Eram dias difíceis aqueles. Viviam da pesca e os peixes haviam desaparecido do mar.

A mãe de Antônio trabalhava muito, fazendo todo o serviço doméstico e ainda auxiliando na limpeza dos peixes que seriam colocados à venda.

Nunca lhes faltara o necessário, embora eles fossem pobres. Agora, porém, a fome rondava a casa.

Durante muitos dias, seu pai saíra para o mar, jogara as redes, mas o barco voltava vazio.

Um grande desânimo tomou conta do coração do pescador e já nem tinha vontade de sair para pescar.

A comida rareava em seu lar, pois não tinha dinheiro, e Pedro via com preocupação o dia em que sua família passaria fome.

Um dia, bateu à porta da casa do pescador uma velhinha suplicando um prato de comida.

— Estou faminta — disse ela com voz fraca. — Pelo amor de Deus, ajudem-me!

Pedro, irritado e nervoso com a situação difícil que atravessava no momento respondeu com grosseria:

— Ajudá-la, como? Mal temos o suficiente para nossa alimentação! Não posso.

O pequeno Antônio, cheio de compaixão pela pobre velhinha, retrucou:

— Mas, papai, ela está pedindo em nome de Deus! Mamãe me ensinou que Jesus disse que deveríamos fazer aos outros o que gostaríamos que os outros nos fizessem. Se estivéssemos na situação dessa senhora, não apreciaria o senhor também ser tratado com bondade?

A mãe de Antônio, de coração generoso e também desejando ajudar a anciã, concordou:

— Nosso filho tem razão, Pedro. Além disso, um prato de comida é tão pouco! Não nos fará falta e Jesus ficará contente conosco.

Vencido pelos familiares, Pedro concordou, afinal.

Era hora da janta e, carinhosamente, a mãe de Antônio fez com que a mendiga entrasse.

Sentaram-se à mesa e repartiram o pouco que tinham, fraternalmente.

Na manhã seguinte o menino acordou e viu seu pai dentro de casa.

— O senhor não vai sair para pescar hoje? — perguntou curioso.

— Não adianta. Os peixes desapareceram do mar — respondeu o pescador cheio de desânimo.

Antônio, com os olhos brilhantes, disse:

— Tenha confiança em Jesus, meu pai. Ele não nos desampara nunca. Vamos para o mar e eu o ajudarei a pescar. Tenho fé em Deus que conseguiremos.

Mais animado pelas palavras do garoto, Pedro arrumou suas coisas rapidamente e saíram no barco.

Pedro jogou a rede e, para sua surpresa, recolheu-a cheia de peixes. E assim, na segunda e na terceira vez.

Retornaram para casa felizes. Pedro não continha sua alegria.

— Graças a você, meu filho, fizemos uma grande pesca e a tranquilidade voltará a reinar em nossa casa.

Fez uma pausa, abraçou o menino e completou, comovido:

— Não fosse sua fé em Deus, nada teríamos conseguido. Bem que Jesus nos ensinou que quem tivesse fé do tamanho de um grão de mostarda conseguiria qualquer coisa. Mas porque você tinha tanta certeza de que nós não voltaríamos de mãos vazias?

— Porque eu aprendi, com Jesus, que quando ajudamos alguém também somos ajudados! — respondeu Antônio com muita lógica.

Pedro fitou o filho longamente, com os olhos rasos de lágrimas, agradecendo a Deus as lições que teve nesse dia inesquecível pela boca de uma criança.

A partir dessa data, Pedro passou a confiar mais em Deus e, informado de que aquela velhinha não possuía um lar e nem parentes, convidou-a para, daquele dia em diante, morar em sua casa e fazer parte da sua família.

Autoria: Célia Xavier Camargo
Imagem meramente ilustrativa – Fonte: Internet Google.
 

quinta-feira, 1 de junho de 2023

Encontro Com a Realidade

Marcos era um menino que, não obstante ter tudo, não dava o menor valor às coisas que possuía.

Nunca estava contente com os brinquedos que ganhava, reclamava sempre das roupas que sua mãe comprava com tanto carinho.

Mas o pior mesmo é quando chegava a hora das refeições. Marcos nunca estava satisfeito, a comida sempre ruim e sem gosto.

Sua mãezinha aconselhava-o, preocupada com seu bem-estar:

— Coma um pouco, meu filho. Você precisa se alimentar!

— Não quero! Não gosto de nada! Esta comida está uma droga. Quero chocolate e biscoitos.

— Mas meu filho — insistia a mãe com carinho e tolerância — você nem experimentou! A carne assada está uma delícia. Além do mais, os alimentos são necessários para nosso organismo. Você acabará ficando fraco...

O garoto fazia uma careta de desagrado e respondia mal-educado:

— Não. Não quero. Não gosto de carne assada. Ainda se fosse uma torta de frango...

A mãe suspirava, desanimada.

No dia seguinte, porém, à hora do almoço, a mãezinha afirmava contente:

— Hoje fiz o que você queria, meu filho. Veja o que temos para o almoço. Uma linda e apetitosa torta de frango!

O menino fazia uma careta e reclamava, mal-humorado:

— Torta de frango?!... Logo hoje que estou com vontade de comer uma macarronada?

E assim acontecia sempre: no café da manhã, no almoço, no jantar. Nada estava bom.

Ele não se alimentava a não ser de bobagens, e a cada dia se enfraquecia mais, embora sua mãe o aconselhasse, preocupada:

— Marcos, meu filho, temos que saber agradecer a Deus o que nos concede. Existem muitas crianças que dariam tudo para ter o que você tem e não dá valor.

Marcos tinha um colega na escola que vivia sempre muito calado. Era um menino humilde, bom e delicado, e Marcos gostava dele.

Certo dia, Marcos reclamou da insistência de sua mãe para que ele se alimentasse e perguntou se a dele, João, também era assim.

— Não — respondeu João com simplicidade.

— Como? Sua mãe não insiste para que você coma?

— Não. Minha mãe me deixa à vontade.

Marcos ficou todo entusiasmado:

— Ah! Como gostaria de morar na sua casa! Estou cansado da vida que levo. Eu não poderia passar uns dois dias com vocês? Olhe, este final de semana estarei livre; meus pais vão viajar e ficarei com os empregados. Não será difícil convencer mamãe a deixar-me ficar em sua casa. Por favor, eu gostaria muito!

Com a insistência de Marcos, Joãozinho concordou, relutante.

Não tinham muito tempo, pois já era sexta-feira. Concedida permissão para passar o final de semana com o amigo, Marcos arrumou algumas coisas numa pequena mochila e foram para a casa de Joãozinho.

Andaram... andaram... andaram muito. Essa foi a primeira decepção de Marcos, pois a casa ficava muito longe, num bairro distante do centro da cidade.

Ao chegarem, o menino estranhou a simplicidade da moradia. Era uma pequena construção de madeira, pintada de creme e cercada por um jardinzinho.

João apresentou o amigo à sua mãe, explicando que Marcos iria ser hóspede da casa por dois dias. Amável, a senhora falou-lhe com um sorriso amigo:

— Seja bem-vindo, meu filho!

Alegando que estava cansado, Marcos pediu para repousar um pouco, indagando onde era o quarto que iria ocupar.

— Aqui mesmo! — apontou Joãozinho — Dormiremos meu irmão, você e eu no mesmo quarto. Você e meu irmão ocuparão as camas, eu durmo no chão.

Marcos nada disse, mas não gostou de repartir o quarto com outras pessoas. Sempre tivera o seu próprio quarto.

A refeição foi frugal, consistindo em chá com pão. Estranhando, Marcos perguntou: — Só isso?

— Só. Essa é a nossa janta. — respondeu a dona da casa com delicadeza — Desde que meu marido morreu, nossa situação ficou muito difícil e luto para sustentar a casa. Aceita um pouco de chá?

— Não gosto de chá, obrigado.

— Sinto muito. Não temos outra coisa para lhe oferecer. Quando tenho dinheiro compro leite, mas hoje não deu.

Marcos foi dormir com o estômago vazio. Na manhã seguinte, o café foi mais magro ainda. Não havia pão, só chá.

Era sábado e não teriam aula. A mãe de Joãozinho acordou-os cedo. Precisavam ajudá-la nos cuidados com a horta.

A contragosto, Marcos trabalhou a manhã inteira. Na hora do almoço estava esfomeado. Para comer, havia alguns ovos, cenouras e couves, colhidos na horta, e arroz.

Com a fome que estava, Marcos até aceitou a comida simples com prazer. Após o almoço ajudaram nas tarefas domésticas, depois foram brincar.

Àquela altura, Marcos já estava com fome novamente. Lembrava-se da comidinha gostosa e farta de sua mãe, dos doces saborosos, dos biscoitos... e sentiu uma profunda saudade. Agora tudo aquilo lhe parecia tão importante!

A mãe de Joãozinho tinha feito pão e o cheiro de pão assado era muito convidativo. Comeu pão e tomou chá, como se fosse a melhor refeição do mundo.

Após o final de semana, quando voltou para casa, estava bem diferente. Ao encontrar sua mãe Marcos falou-lhe comovido:

— Estava com muita saudade, mamãe.

— Como foi o passeio? — perguntou ela, sentindo que algo acontecera.

— Sabe, mamãe, aprendi muita coisa. Aprendi até a gostar de chá, cenouras e couves! Joãozinho é um menino muito pobre e eles quase não têm o que comer. Ele não tem roupas, nem brinquedos e seus sapatos estão furados. Agora entendo porque a senhora disse que temos que agradecer a Deus tudo o que temos.

A mãe abraçou o filho, emocionada.

— Que bom, meu filho, que você agora pensa assim.

— Compreendo agora que a vida pode ser muito difícil e acho que tive um encontro com a realidade. Quero pedir que a senhora vá comigo até a casa do Joãozinho. Tem tanta coisa que não preciso e que faz falta a eles!

A mãe fitou com os olhos rasos de lágrimas aquele garoto de oito anos e que agora lhe parecia um homenzinho, falando tão sério e compenetrado.

Abraçou-o com imenso carinho, agradecendo a Deus a proveitosa lição que seu filho tivera.

Autoria: Célia Xavier Camargo
Imagem meramente ilustrativa – Fonte: Internet Google.