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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

QUE DIA É NATAL?

Seu Jorge acabava de fazer o embrulho de roupinhas de presente, quando disse à esposa:

- Pronto. O pacote está feito. Já podemos ir visitar as crianças do internato.

Mas Paulinho, com seus seis anos ricos de curiosidade, quis logo saber:

- Papai, que é internato?

- É uma casa geralmente grande, onde moram muitas crianças.

- Todo mundo irmão?!

- Bem, é que... é que...

Seu Jorge não queria chocar o filhinho, principalmente hoje, que era dia de Natal e procurava a melhor explicação que não faltasse à verdade, no que foi salvo pelo pedido do filho:

- Eu também quero ir. Você me leva?

Seu Jorge e Dona Célia trocaram um olhar. Será que Paulinho iria compreender?

Mas ela fez um sinal com a cabeça, concordando, e o pai respondeu:

- De certo. Você vai conosco.

Saíram, foram para o ponto de ônibus, que não demorou a chegar.

Dizia: Vila Velha. É lá que ficava o internato. Rodaram mais de meia hora e chegaram.

Desceram do ônibus e leram a tabuleta que anunciava: “Casa da Criança Feliz”.

O portão de ferro meio bambo e as paredes descascadas do muro deixavam claro que o dinheiro não era farto, mas o chão de terra, varridinho, dava certo ar de conforto espiritual.

Bateram palmas e não demorou que uma garota de uns doze anos abrisse o cadeado e puxasse as grossas correntes que libertaram a passagem.

- Feliz Natal! – disse a menina.

- Feliz Natal! – responderam pai e mãe.

Mas Paulinho nada falou. Só ele parecia ter percebido que ela estava descalça; que os cabelos não bem penteados e o vestido comum não pareciam apropriados para um dia de festas.

- Tia Noca está lá dentro de casa. Podem seguir.

Pai e mãe, à frente; o garoto, um pouco mais atrás. Ela tornou a fechar o protão e demorou- se um pouco, observando o mundo que existia do lado de fora.

Paulinho procurava com os olhos outros meninos, iguais a ele, mas não encontrou nenhum. Todas as crianças à vista eram meninas.

Papai e mamãe nem repararam, pois consideravam tudo muito lógico, mas o filho achava isso um tanto esquisito. “Por que aqui não nascem meninos?” – pensava mais desconfiado que interessado.

Paulinho reparou que a porta de entrada da casa não era fechada, como a da sua, e ia chegando à conclusão de que aquele casarão era definitivamente bem diferente do lar onde residia.

Tia Noca logo chegou. Tinha o ar de mulher bondosa, dessas que os Espíritos bons assistem com interesse, já que são tão raras.

Diversas crianças lhes agarravam o vestido, mal deixando-a caminhar.

Os pais se maravilhavam, e pensaram: “como gostam dela!”.

- Feliz Natal!

- Feliz Natal!

Paulinho continuava calado, mas se alguém pudesse penetrar naquela cabecinha, leria seus pensamentos secretos: “Eu gosto muito do papai e da mamãe; de vez em quando me agarro nas pernas deles, mas não fico assim pregado, como todas essas filhas da Tia Noca. Eu abraço meus pais por amor, mas elas parecem que agarram procurando amor”.

Paulinho estava realmente confuso. Se ela era bondosa, porque suas filhas pareciam ter falta de amor?

À proporção que iam pela casa adentro, mais e mais meninas apareciam. Paulinho mais confuso ficava. “Com tantas filhas, não dá mesmo tempo para distribuir amor como na minha casa”.

Mais encabulado se punha por ver que Tia Noca tinha filhas brancas, outras pretinhas, e até uma de olhos amendoados de japonesinha!

“Não estou entendendo nada!”, pensava o garoto, que só percebeu que os grandes conversavam, quando a mãe exclamou, alto: - “É aquela ali!”

Paulinho estancou, de olhos arregalados e assustados. Reconhecendo Lili, a filha da empregada que “Papai do Céu levara para junto dele”, no mês passado, compreendeu que aquelas meninas não eram filhas de Tia Noca.

Olhou para aquela mulher de semblante radioso, com profundo respeito, mas um ligeiro ar de reprovação se mostrou em sua voz infantil, ao dizer aos pais:

- “Eu quero ela de presente de Natal, para mim”.

Cerca de dois meses se passaram, e Paulinho já havia perdido as esperanças de ganhar “o seu presente”.

O Natal ficara para trás e um outro, novo, só no final do ano.

Era pequeno demais ainda, para saber que quando se é grande, tudo se torna difícil e complicado.

Foi, pois, com relutância que aceitou o convite dos pais para irem novamente ver Lili. Não que se houvesse desinteressado dela, mas porque o machucava a cena da prisão de um ente querido.

- Por que ela está obrigada lá?

- Não é obrigada, é abrigada, que se diz, corrigiu mamãe.

Paulinho ficou mais confuso. Alguma coisa lhe dizia que se Jesus aconselhara abrigar crianças sem pais, haveria de ser nos corações, e não nos casarões. Por que a gente grande confunde tanto as coisas?

Mas o desejo de revê-la reavivou-lhe a chama do amor fraterno, e um minuto após, já corria para a porta, e para o ponto do “Vila Velha”.

Já no “Lar da Criança Feliz”, viu que Tia Noca entregava ao papai e à mamãe, diversos papéis onde eles escreveram qualquer coisa que ele não sabia o que era, mas haveria de ser algo muito bom, porque Tia Noca, tomando Lili no colo, beijou-a com os olhos rasos de lágrimas e lhe disse:

- Que Jesus te abençoe, filha querida! Atônito e feliz, Paulinho viu-a colocar Lili nos braços de Dona Célia que, beijando-a também, úmidos os olhos, a colocara no chão, a seu lado. Até papai, que era homem, chorou.

Pelo brilho do olhar, adivinhava-se que Paulinho compreendera que Tia Noca só tomava conta daquelas meninas, esperando que cada lar fosse buscar uma para receber como filha espiritual.

Na inocência infantil imaginou que o internato iria esvaziar, dentro de poucos dias.

Seu Jorge e Dona Célia sabiam que é complicado adotar, que redobrado amor se há de ter, mas confiaram.

Parece que Jesus falara pelos lábios daquela criança.

Não era dezembro, mas era muito mais Natal!


Demétrio Pável Bastos - Alô Coração - Juiz de Fora - Instituto Maria.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

PORQUÊ?

Enquanto o ônibus deslizava de Nova Iorque para Miami, Adolph Hunt, proprietário de extensos pomares na Flórida, dizia para o companheiro de poltrona.

– Imagine você, Fred, que andam veiculando por aí supostos recados do Espírito de meu pai, falando em virtude e regeneração…

Aperfeiçoamento é negócio de tempo. Hoje em dia, qualquer menino sabe o que vem a ser evolução… Ora, se ninguém pode trair a obra gradativa do progresso, para que essa máquina aparatosa de Espíritos e médiuns, fenômenos e mensagens que o Espiritismo pretende acionar, no mundo, em nome de Deus e de imaginários Mensageiros Divinos?

Pode você dizer-me o que Deus tem lá com isso? Ou, ainda, que têm conosco os chamados Amigos Espirituais?

O interlocutor, encorajado pela atenção de outros ouvintes, gargalhava irônico e chancelava:

– Eu também creio assim… Estamos com Deus ou com a evolução…

Mediunidade é balela. Nem Deus e nem Espíritos interferirão com as leis da vida…

A conversa alongou-se, nesse tom, quando Adolph, chegado ao ponto de destino, veio a saber por um amigo que a sua maior estância havia sido varrida por violento furacão…

De pronto, valeu-se do automóvel e tocou para o sítio indicado e oh desolação! Centenas de árvores frutíferas, notadamente as laranjeiras de classe, jaziam mutiladas ou retorcidas, exigindo cuidados imediatos.

Terrivelmente surpreendido, ele, que acima de tudo amava o enorme pomar, convocou os filhos ausentes e os empregados de sua organização a trabalho reparador e, durante quatro dias compridos, nos quais ele próprio não descansou, a enorme chácara recebeu socorro e restauração.

Na quinta noite, após o desastre, quando pôde enfim entregar-se ao repouso, sonhou com o pai, a dizer-lhe com benevolente sorriso:

– Meu filho, se você, meus netos e os nossos cooperadores de serviço, imperfeitos como ainda são, se empenharam, com tanto carinho, pela salvação de um laranjal, porque negar a Deus, nosso Pai de Infinito Amor e aos Bons Espíritos, nossos Irmãos Maiores, o direito de se interessarem pela melhoria da Humanidade?

Adolph Hunt, retomou o corpo físico e prosseguiu escutando a voz paterna a se lhe entranhar na acústica da alma:

– Porquê? Porquê, meu filho?

Livro: Entre Irmãos de Outras Terras – Médium: Waldo Vieira – Espírito: Hilário Silva.

Fonte da imagem: Internet Google.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

VERDUGO E VÍTIMA

O rio transbordava.

Aqui e ali, na crista espumosa da corrente pesada, boiavam animais mortos ou deslizavam toras e ramarias.

Vazantes em torno davam expansão ao crescente lençol de massa barrenta.

Famílias inteiras abandonavam casebres, sob a chuva, carregando aves espantadiças, quando não estivessem puxando algum cavalo magro.

Quirino, o jovem barqueiro, que vinte e seis anos de sol no sertão haviam enrijado de todo, ruminava plano sinistro.

Não longe, em casinhola fortificada, vivia Licurgo, conhecido usurário das redondezas.

Todos o sabiam proprietário de pequena fortuna a que montava guarda vigilante.

Ninguém, no entanto, poderia avaliar-lhe a extensão, porque, sozinho envelhecera e sozinho atendia às próprias necessidades.

- “O velho – dizia Quirino de si para consigo – será atingido na certa. É a primeira vez que surge uma cheia como esta. Agarrado aos próprios haveres será levado de roldão… E se as águas devem acabar com tudo, porque não me beneficiar? O homem já passou dos setenta… Morrerá a qualquer hora. Se não for hoje, será amanhã, depois de amanhã… E o dinheiro guardado? Não poderia servir para mim, que estou moço e com pleno direito ao futuro?…”

O aguaceiro caía sempre, na tarde fria.

O rapaz, hesitante, bateu à porta da choupana molhada.

- “Seu” Licurgo! “Seu” Licurgo!…

E, ante o rosto assombrado do velhinho que assomara à janela, informou:

- Se o senhor não quer morrer, não demore. Mais um pouco de tempo e as águas chegarão.

Todos os vizinhos já se foram…

Não, não… – resmungou o proprietário -, moro aqui há muitos anos.

Tenho confiança em Deus e no rio… Não sairei.

- Venho fazer-lhe um favor…

- Agradeço, mas não sairei.

Tomado de criminoso impulso, o barqueiro empurrou a porta mal fechada e avançou sobre o velho, que procurou em vão reagir.

- Não me mate assassino!

A voz rouquenha, contudo, silenciou nos dedos robustos do jovem.

Quirino largou para um lado o corpo amolecido, como traste inútil, arrebatou pequeno molho de chaves do grande cinto e, em seguida, varejou todos os escaninhos…

Gavetas abertas mostravam cédulas mofadas, moedas antigas e diamantes, sobretudo diamantes.

Enceguecido de ambição, o moço recolhe quanto acha.

A noite chuvosa descerra completa…

Quirino toma os despojos da vítima num cobertor e, em minutos breves, o cadáver mergulha no rio.

Logo após, volta à casa despovoada, recompõe o ambiente e afasta-se, enfim, carregando a fortuna.

Passado algum tempo, o homicida não vê que uma sombra se lhe esgueira à retaguarda.

É o Espírito de Licurgo, que acompanha o tesouro.

Pressionado pelo remorso, o barqueiro abandona a região e instala-se em grande cidade, com pequena casa comercial, e casa-se, procurando esquecer o próprio arrependimento, mas recebe o velho Licurgo, reencarnado, por seu primeiro filho…

Livro: Contos Desta e Doutra Vida – Médium: Chico Xavier – Espírito Humberto de Campos.

Fonte da imagem: Internet Google.

domingo, 1 de novembro de 2015

ESTRELA DE CINCO RAIOS

Quando psicografava o livro Paulo e Estevão, do Espírito Emmanuel, Francisco Cândido Xavier via, ao seu lado, um sapo feio, gorduchão, que o amedrontava muito…

No princípio, distava-lhe alguns metros. Depois, à proporção que a grande obra chegava ao fim, o sapo estava quase aos pés do médium.
Isto lhe dava um mal-estar intraduzível.

Emmanuel, observando-lhe o receio, diz-lhe:
– O sapo é um animal inofensivo, um abnegado jardineiro, que limpa os jardins dos insetos perniciosos. Não compreendo, pois, sua antipatia pelo pobre batráquio… Procure observá-lo mais de perto, com simpatia, e acabará sentindo-lhe estima.

Após ponderação justa de seu Guia, o Chico começou a ter simpatia pelo sapo, e achar-lhe até certa beleza, particular utilidade, um verdadeiro servidor.

Terminou a recepção do formoso livro e Emmanuel, completando o asserto, pondera-lhe, bondoso:

– O homem, Chico, será um dia, uma Estrela de Cinco Raios, quando possuir os pés, as mãos, e a cabeça alevantados, liberados.
Já possui três raios: as mãos e a cabeça, faltando-lhes os dois pés, os quais serão libertados quando perder a atração da Terra.

Existem, no entanto, germes, animais, seres outros, com os cinco raios voltados para baixo, para a Terra, sugando-lhe o seio, vivendo de sua vida.

Assim é o sapo, coitado, que luta intensamente para levantar um raio, pelo menos a cabeça. O boi já possui a cabeça alevantada, já que progrediu um pouco.

É preciso, pois, que o Homem sinta a graça que já guarda e lute, através dos três raios já suspensos, pela aquisição dos outros dois.

Que saiba sofrer, amar, perdoar, renunciar, até libertar-se do erro, dos vícios, das paixões, e, desta forma, terá livres os pés para transformar-se numa Estrela de Cinco Raios e participar da vida de outras Constelações, em meio das quais brilha uma Estrela Maior, que é Jesus.

Livro: Na Intimidade – Médium: Chico Xavier – Espírito: Ramiro Gama

Fonte da imagem: Internet Google.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

O HOMEM BOM

Conta-se que Jesus, após narrar a Parábola do Bom Samaritano, foi novamente interpelado pelo doutor da lei que, alegando não lhe haver compreendido integralmente a lição, perguntou, sutil:

- Mestre, que farei para ser considerado homem bom?

Evidenciando paciência admirável, o Senhor respondeu:

- Imagina-te vitimado por mudez que te iniba a manifestação do verbo escorreito e pensa quão grato te mostrarias ao companheiro que falasse por ti a palavra encarcerada na boca.

Imagina-te de olhos mortos pela enfermidade irremediável e lembra a alegria da caminhada, ante as mãos que te estendessem ao passo incerto, garantindo-te a segurança.

Imagina-te caído e desfalecente, na via pública, e preliba o teu consolo nos braços que te oferecessem amparo, sem qualquer desrespeito para com os teus sofrimentos.

Imagina-te tocado por moléstia contagiosa e reflete no contentamento que te iluminaria o coração, perante a visita do amigo que te fosse levar alguns minutos de solidariedade.

Imagina-te no cárcere, padecendo a incompreensão do mundo, e recorda como te edificaria o gesto de coragem do irmão que te buscasse testemunhar entendimento.

Imagina-te sem pão no lar, arrostando amargura e escassez, e raciocina sobre a felicidade que te apareceria de súbito no amparo daqueles que te levassem leve migalha de auxílio, sem perguntar por teu modo de crer e sem te exigir exames de consciência.

Imagina-te em erro, sob o sarcasmo de muitos, e mentaliza o bálsamo com que te aclamarias, diante da indulgência dos que te desculpassem a falta, alentando-te o recomeço.

Imagina-te fatigado e intemperante observa quão reconhecido ficarias para com todos os que te ofertassem a oração do silêncio e a frase de simpatia.

Em seguida ao intervalo espontâneo, indagou-lhe o Divino Amigo:

- Em teu parecer, quais teriam sido os homens bons nessas circunstâncias?

- Os que usassem de compreensão e misericórdia para comigo – explicou o interlocutor.

- Então – repetiu Jesus com bondade – segue adiante e faze também o mesmo.

Médium: Chico Xavier – Espírito: Emmanuel.

Fonte da imagem: Internet Google.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O GOLPE DE VENTO

Ali, na solidão do quarto de estudo, Joanino Garcia descerrara a grande janela, à procura de ar fresco.

Repousara minutos breves.

Agora, porém, acreditava ter chegado ao fim.

Julgara haver lido numa obra de clínica médica a própria sentença de morte.

Facilmente sugestionável, há muito vinha dando imenso trabalho ao médico.

E, não obstante espírita convicto; deixava-se levar por impressões.

Em menos de dois anos, sentira-se vitimado por sintomas diversos.

A princípio, dominado por bronquite rebelde, compulsara um livro sobre tuberculose e supusera-se viveiro dos bacilos de Koch.

Tempo e dinheiro foram gastos em exames e chapas.

Entretanto, mal não acabara de se convencer do contrário, quando, numa noite, ao sentir-se trêmulo, sob o efeito de determinada droga, começou a estudar a doença de Parkinson e foi nova luta para que lhe desanuviasse o crânio.

Joanino mostrara-se contente, por alguns dias; entretanto, uma intoxicação alterou-lhe a pele e ei-lo crente de que fora atacado pela púrpura hemorrágica, obrigando o médico e a família a difícil trabalho de exoneração mental.

Naquele instante, contudo, via-se derrotado.

Experimentando muita dor, buscara o consultório na antevéspera e o clínico amigo descobrira uma artrite reumatoide, recomendando cuidados especiais.

No grande sofá, depois de leve refeição, ao sentir pontadas relampagueantes no ombro esquerdo, tomou o livro de anotações médicas e abriu no capítulo alusivo à moléstia que lhe fora diagnosticada.

Antes de iniciar a leitura, levantou-se com dificuldade, para um gole d’água, tentando aliviar as agulhadas nervosas, e não viu que o vento virara as folhas do volume.

Voltando, sobressaltado leu nas primeiras linhas da página:

- “A moléstia assume a forma de dor pungente e agonizante.  Geralmente a crise perdura por segundos e termina com a morte.  Sofrimento agudo e invencível.  A dor começa no ombro esquerdo a refletir-se na superfície flexora do braço esquerdo até às pontas dos dedos médios”.

Joanino rendeu-se.

Quis gritar, pedir socorro, mas “a dor agonizante”, ali referida, crescia assustadora.

Pensou na mulher e nos quatro filhinhos.

Afligia-se como que sufocado.

Não podendo resistir, por mais tempo, aos próprios pensamentos concentrados na ideia da desencarnação, rendeu-se à morte.

Despertando, porém, fora do corpo de carne, afogado em preocupações, ao pé dos familiares em chorosa gritaria, viu o benfeitor espiritual que velava habitualmente por ele.

O amigo abraçou-o emocionado, e falou:

- É lamentável que você tenha vindo antes do tempo…

- Como assim? – respondeu Garcia, arrasado. – Li os sintomas derradeiros de minha enfermidade.

- Houve engano – explicou o instrutor – os apontamentos do livro reportavam-se à angina de peito e não à artrite reumatoide como a sua leitura fez supor.  A corrente de ar virou a página do livro.  Você possuía, em verdade, um processo anginoso, mas com catorze anos de sobrevida… Entretanto, com o peso de sua tensão mental…

Só aí Joanino veio a saber que morrera, de modo prematuro, em razão da sensibilidade excessiva, ante a leitura alterada por ligeiro golpe de vento.

Livro: Ideias e Ilustrações – Médium: Chico Xavier – Espírito: Hilário Silva.

Fonte da imagem: Internet Google.

sábado, 19 de setembro de 2015

A SOMBRA DO BURRO

Certa vez, promovendo uma assembleia pública em Atenas para tratar de altos interesses da pátria grega, Demóstenes viu-se apupado pela turba impaciente, que fazia menção de retirar-se sem ouvi-lo. Então, elevando a voz, disse que tinha uma historia interessante a contar. Obteve, assim, silêncio e atenção, e começou:

- Certo jovem, precisando ir de sua casa até Mégara durante o auge do verão, alugou um burro, pondo-se a caminho. Quando o sol ficou a pino, ardentíssimo, tanto o moço como o dono do animal alugado tiveram vontade de sentar-se à sombra do burro, e começaram a empurrar-se mutuamente, a fim de ficar com o lugar.

Dizia o dono do animal que apenas alugara o burro e não a sua sombra, e o outro afirmava que tendo pago o aluguel do burro, pagara também o de sua sombra, pois tudo quanto pertencia ao burro lhe fora alugado com ele…

A esta altura. Demóstenes levantou-se e fez menção de retirar-se. A multidão protestou, desejosa de ouvir o resto da historia. Foi então que o prodigioso orador, erguendo-se em toda a sua altura, e encarando com firmeza o auditório, declarou, a voz trovejante:

- Atenienses! Que espécie de homens sois, que insiste em saber a historia da sombra de um burro e recusais tomar conhecimento dos fatos mais graves que vos dizem respeito?

Só então pode fazer o discurso que pretendia, para um auditório envergonhado e atento, que, afinal, ficou sem saber o fim da historia da sombra do burro.

Antônio F. Rodrigues

Livro: Antologia Espírita e Popular “Mensagens dos Mestres”
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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

A MULTA MAIOR

O recinto do Tribunal estava lotado, não tanto pela importância dos crimes que seriam julgados, mas pela presença do prefeito de Nova York, La Guardia, que costumava, nessas ocasiões, sentenciar casos policiais simples, com decisões que ficavam famosas pelo seu conteúdo de sabedoria e originalidade.

Um dos acusados fora pilhado em flagrante, roubando pão em movimentada padaria. O homem inspirava compaixão: muito magro, barba por fazer, roupas em desalinho – era a própria imagem da miséria!…

La Guardia submeteu-o, solene, ao interrogatório, consultou as testemunhas e, após rápida apreciação, considerou-o culpado, aplicando-lhe a multa de cinquenta dólares. A alternativa seria a prisão…

Em seguida, dirigindo-se à pequena multidão que acompanhava, atenta o julgamento, disse, peremptório:

- Quanto aos presentes, estão todos condenados a pagar meio dólar cada um, importância que servirá para liquidar o débito do réu, restituindo-lhe a liberdade.

E ante a estupefação geral, acentuou:

- Estão multados por viverem numa cidade onde um homem é obrigado a roubar pão para matar a fome!…

Todos nós, habitantes de qualquer cidade do Mundo, estamos sujeitos a uma multa muito mais severa, a uma sanção muito mais grave – a frustração dos anseios de Felicidade, os desajustes intermináveis, as crises de angústia – por vivermos num planeta onde as palavras fraternidade, bondade, solidariedade, são enunciadas como virtudes raras, quando são apenas elementares deveres, indispensáveis à preservação do equilíbrio em qualquer comunidade.

Dizem os Espíritos Superiores que a Felicidade do Céu é socorrer a infelicidade da Terra. Diríamos que somente na medida em que estivermos dispostos a socorrer a infelicidade da Terra é que estaremos a caminho da Felicidade do Céu.

Não há alternativa. Podemos nos isolar da multidão aflita e sofredora, mas jamais estaremos bem, porquanto a infelicidade é o clima crônico dos que se fecham em si mesmos.

Mãos servindo são antenas que estendemos para a sintonia com as fontes da Vida e a captação das Bênçãos de Deus!

Richard Simonetti - Livro: Atravessando a Rua


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domingo, 16 de agosto de 2015

NO CAMINHO DO AMOR

Em Jerusalém, nos arredores do Templo, adornada mulher encontrou um nazareno, de olhos fascinantes e lúcidos, de cabelos delicados e melancólico sorriso, e fixou-o estranhamente.

Arrebatada na onda de simpatia a irradiar-se dele, corrigiu as dobras da túnica muito alva, colocou no olhar indizível expressão de doçura e, deixando perceber, nos meneios do corpo frágil, a visível paixão que a possuíra de súbito, abeirou-se do desconhecido e falou, ciciante:

- Jovem, as flores de Séforis encheram-me a ânfora do coração com deliciosos perfumes. Tenho felicidade ao teu dispor, em minha loja de essências finas…

Indicou extensa vila, cercada de rosas, à sombra de arvoredo acolhedor, e ajuntou:

- Inúmeros peregrinos cansados me buscam à procura do repouso que reconforta. Em minha primavera juvenil, encontram o prazer que representa a coroa da vida. É que o lírio do vale não tem a carícia dos meus braços e a romã saborosa não possui o mel de meus lábios.

Vem e vê! Dar-te-ei leito macio, tapetes dourados e vinho capitoso… Acariciar-te-ei a fronte abatida e curar-te-ei o cansaço da viagem longa! Descansarás teus pés em água de nardo e ouvirás, feliz, as harpas e os alaúdes de meu jardim.  Tenho a meu serviço músicos e dançarinas, exercitados em palácios ilustres!…

Ante a incompreensível mudez do viajor, tornou, súplice, depois de leve pausa:

- Jovem, por que não respondes? Descobri em teus olhos diferente chama e assim procedo por amar-te. Tenho sede de afeição que me complete a vida. Atende! atende!…

Ele parecia não perceber a vibração febril com que semelhantes palavras eram pronunciadas e, notando-lhe a expressão fisionômica indefinível, a vendedora de essências acrescentou um tanto agastada:

- Não virás?

Constrangido por aquele olhar esfogueado, o forasteiro apenas murmurou:

- Agora, não. Depois, no entanto, quem sabe?!…

A mulher, ajaezada de enfeites, sentindo-se desprezada, prorrompeu em sarcasmos e partiu.

Transcorridos dois anos, quando Jesus levantava paralíticos, ao pé do Tanque de Betesda, venerável anciã pediu-lhe socorro para infeliz criatura, atenazada de sofrimento.

O Mestre seguiu-a, sem hesitar.

Num pardieiro denegrido, um corpo chagado exalava gemidos angustiosos.

A disputada mercadora de aromas ali se encontrava carcomida de úlceras, de pele enegrecida e rosto disforme. Feridas sanguinolentas pontilhavam lhe a carne, agora semelhante ao esterco da terra.

Exceção dos olhos profundos e indagadores, nada mais lhe restava da feminilidade antiga. Era uma sombra leprosa, de que ninguém ousava aproximar.

Fitou o Mestre e reconheceu-o.

Era o mesmo mancebo nazareno, de porte sublime e atraente expressão.

O Cristo estendeu-lhe os braços, tocado de intraduzível ternura e convidou:

- Vem a mim, tu que sofres! Na Casa de Meu Pai, nunca se extingue a esperança.

A interpelada quis recuar, conturbada de assombro, mas não conseguiu mover os próprios dedos, vencida de dor.

O Mestre, porém, transbordando compaixão, prosternou-se fraternal, e aconchegou-a, de manso…

A infeliz reuniu todas as forças que lhe sobravam e perguntou, em voz reticenciosa e dorida:

- Tu?… O Messias Nazareno?… O Profeta que cura, reanima e alivia?!… Que vieste fazer, junto de mulher tão miserável quanto eu?

Ele, contudo, sorriu benevolente, retrucando apenas:

- Agora, venho satisfazer-te os apelos.

E, recordando-lhe as palavras do primeiro encontro, acentuou, compassivo:

– Descubro em teus olhos diferente chama e assim procedo por amar-te.


Médium: Chico Xavier - Espírito: Irmão X

domingo, 2 de agosto de 2015

PACIÊNCIA

O caminhoneiro solitário seguia, com fome, à margem do rio.

Nervoso e impaciente, ia censurando a tudo e a todos, por achar-se em penúria.

Caminhava devagar, quando viu algo na estrada chamando-lhe a atenção.

Uma cédula!

Abaixou-se e colheu o achado.

Uma nota de cem cruzados, enrolada e manchada.

Contudo, para surpresa sua, era somente a metade da cédula, que apesar de nova, fora inexplicavelmente cortada.

Ainda mais irritado, amarfanhou o papel valioso e atirou-o à correnteza do rio, blasfemando.

Deu mais alguns passos à frente, seguindo pela mesma estrada, quando surpreendeu outro fragmento de papel no solo.

Inclinou-se de novo e apanhou-o.

Era a outra metade da cédula que, enervado e contrafeito, havia projetado nas águas.

O vento separara as duas partes; ele, porém, não tivera a paciência de esperar alguns segundos, apenas.

Há sempre socorro às nossas necessidades.

No entanto, até para receber o auxílio da Divina Bondade ninguém prescinde de calma e da paciência.

Médium: Waldo Vieira – Espírito: Valérium.

Fonte da imagem: Internet Google.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

A DIVINA VISÃO

Muitos anos orara certa devota, implorando uma visão do Senhor.

Mortificava-se. Aflitivas penitências alquebraram-lhe o corpo e a alma. Exercitava não somente rigorosos jejuns. Confiava-se a difícil adestramento espiritual e entesourara no íntimo preciosas virtudes cristãs. Em verdade, a adoração impelira-a ao afastamento do mundo. Vivia segregada, quase sozinha. Mas, a humildade pura lhe constituía cristalina fonte de piedade. A oração convertera-se-lhe na vida em luz acesa. Renunciara às posses humanas. Mal se alimentava. Da janela ampla de seu alto aposento, convertido em genuflexório, fitava a amplidão azul, entre preces e evocações. Muitas vezes notava que largo rumor de vozes vinha de baixo, da via pública. Não se detinha, porém, nas tricas dos homens. Aprazia-lhe cultivar a fé sem mácula, faminta de integração com o Divino Amor.

Em muitas ocasiões, olhos lavados em lágrimas, inquiria, súplice, ao Alto:

- Mestre, quando virás?

Findo o colóquio sublime, voltava aos afazeres domésticos. Sabia consagrar-se ao bem das pessoas que lhe eram queridas. Carinhosamente distribuía a água e o pão à mesa. Em seguida, entregava-se a edificante leitura de páginas seráficas. Mentalizava o exemplo dos santos e pedia-lhes força para conduzir a própria alma ao Divino Amigo.

Milhares de dias alongaram-lhe a expectação.

Rugas enormes marcavam-lhe, agora, o rosto. A cabeleira, dantes basta e negra, começava a encanecer.

De olhos pousados no firmamento, meditava sempre, aguardando a Visita Celestial.

Certa manhã ensolarada, sopitando a emoção, viu que um ponto luminoso se formara no Espaço, crescendo… crescendo… até que se transformou na excelsa figura do Benfeitor Eterno.

O Inesquecível Amado como que lhe vinha ao encontro.

Que preciosa mercê lhe faria o Salvador? Arrebatá-la-ia ao paraíso? Enriquecê-la-ia com o milagre de santas revelações?

Extática, balbuciando comovedora súplica, reparou, no entanto, que o Mestre passou junto dela, como se lhe não percebesse a presença. Entre o desapontamento e a admiração, viu que Jesus parara mais adiante, na intimidade com os pedestres distraídos.

Incontinente, contendo a custo o coração no peito, desceu até à rua e, deslumbrada, abeirou-se dele e rogou, genuflexa:

- Senhor, digna-te receber-me por escrava fiel!… Mostra-me a tua vontade! Manda e obedecerei!…

O Embaixador Divino afagou-lhe os cabelos salpicados de neve e respondeu:
- Ajuda-me aqui e agora!… Passará, dentro em pouco, pobre menino recém-nascido. Não tem pai que o ame na Terra e nem lar que o reconforte. Na aparência, é um rebento infeliz de apagada mulher. Entretanto, é valioso trabalhador do Reino de Deus, cujo futuro nos cabe prevenir. Ajudemo-lo, bem como a tantos outros irmãos necessitados, aos quais devemos amparar com o nosso amor e dedicação.

Logo após, por mais se esforçasse, ela nada mais viu.
O Mestre como que se fundira na neblina esvoaçante…
De alma renovada, porém, aguardou o momento de servir. E, quando a infortunada mãe apareceu, sobraçando um anjinho enfermo, a serva do Cristo socorreu-a, de pronto, com alimentação adequada e roupa agasalhante.

Desde então, a devota transformada não mais esperou por Jesus, imóvel e zelosa, na janela do seu alto aposento. Depois de prece curta, descia para o trabalho à multidão desconhecida, na execução de tarefas aparentemente sem importância, fosse para lavar a ferida de um transeunte, para socorrer uma criancinha doente, ou para levar uma palavra de ânimo ou consolo.

E assim procedendo, radiante, tornou a ver, muita vezes, o Senhor que lhe sorria reconhecido…

Médium: Chico Xavier – Espírito: Irmão X.

Fonte da imagem: Internet Google.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

O DEVOTO DESILUDIDO

O fato parece anedota, mas um amigo nos contou a pequena história que passamos para frente, assegurando que o relato se baseia na mais viva realidade.

Hemetério Rezende era um tipo de crente esquisito, fixado à ideia de paraíso.  Admitia piamente que a prece dispensava as boas obras, e que a oração ainda era o melhor meio de se forrar a qualquer esforço.

“Descansar, descansar!…” Na cabeça dele, isso era um refrão mental incessante.  O cumprimento de mínimo dever lhe surgia à vista por atividade sacrificial e, nas poucas obrigações que exercia, acusava-se por penitente desventurado, a lamentar-se por bagatelas.  Por isso mesmo, fantasiava o “doce fazer nada” para depois da morte do corpo físico.  O reino celeste, a seu ver, constituir-se-ia de espetáculos fascinantes de permeio com manjares deliciosos… Fontes de leite e mel, frutos e flores, a se revelarem por milagres constantes, enxameariam aqui e ali, no éden dos justos…

Nessa expectativa, Rezende largou o corpo em idade provecta, a prelibar prazeres e mais prazeres.

Com efeito, espírito desencarnado, logo após o grande transe foi atraído, de imediato, para uma colônia de criaturas desocupadas e gozadoras que lhe eram afins, e aí encontrou o padrão de vida com que sonhara: preguiça louvaminheira, a coroar-se de festas sem sentido e a empanturrar-se de pratos feitos.

Nada a construir, ninguém a auxiliar…

As semanas se sobrepunham às semanas, quando, Rezende, que se supunha no céu, passou a sentir-se castigado por terrível desencanto.  Suspirava por renovar-se e concluía que para isso lhe seria indispensável trabalhar…

Tomado de tédio e desilusão, não achava em si mesmo senão o anseio de mudança…

À face disso, esperou e esperou, e, quando se viu à frente de um dos comandantes do estranho burgo espiritual, arriscou, súplice:

- Meu amigo, meu amigo!… Quero agir, fazer algo, melhorar-me, esquecer-me!… Peço transformação, transformação!…

- Para onde desejas ir? – indagou o interpelado, um tanto sarcástico.

- Aspiro a servir, em favor de alguém… Nada encontro aqui para ser útil… Por piedade, deixe-me seguir para o inferno, onde espero movimentar-me e ser diferente…

Foi então que o enigmático chefe sorriu e falou, claro:

- Hemetério, você pede para descer ao inferno, mas escute, meu caro!… Sem responsabilidade, sem disciplina, sem trabalho, sem qualquer necessidade de praticar a abnegação, como vive agora, onde pensa você que já está?

Livro: Estante da Vida – Médium: Chico Xavier – Espírito: Irmão X.

Fonte da imagem: Internet Google.