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sexta-feira, 15 de julho de 2022

Necessidade do Perdão

O dia estava lindo e agradável. Marcelo, porém, chegou em casa irritado e nervoso.

Entrou pisando duro, bateu a porta com força e jogou a mochila numa cadeira.

A mãe, que o observava, aproximou-se serena perguntando:

— Por que todo esse mal humor, meu filho? O sol está brilhando lá fora e a vida é bela! O que aconteceu de tão grave que justifique a maneira desagradável com que entrou em casa hoje?

Carrancudo, o menino respondeu:

— Estou zangado com o Gabriel. Além de rasgar meu livro de estimação, ainda brigou comigo. Não vou perdoá-lo nunca!

A mãezinha enlaçou-o carinhosamente e aconselhou:

— Não diga isso, meu filho. Todos nós precisamos do perdão, pois também erramos. Jesus ensinou que devemos perdoar não sete vezes apenas, mas setenta vezes sete vezes. Isto é, ensinou que devemos perdoar sempre. Além disso, também não devemos julgar ninguém. Será que o Gabriel rasgou seu livro de propósito?

— Não sei e nem me interessa. Não quero mais a amizade dele — afirmou o garoto, categórico.

A mãe passou a mão pelos cabelos do filho e ponderou:

— Tente perdoar, Marcelo. Enquanto você não esquecer a ofensa, não terá felicidade e paz.

— Não consigo, mamãe. Acho que não sei perdoar.

A senhora pareceu meditar por alguns instantes e depois falou:

— Lembra-se de quando você ganhou a bicicleta?

— Como não? — respondeu Marcelo. — Quantas vezes caí até conseguir equilibrar-me e sair andando!

— É verdade, meu filho. Hoje, porém, você não se lembra mais disso quando sai para passear. E quando aprendeu a nadar?

— Também me custou muito esforço! — lembrou o menino.

— E quando entrou na escola para ser alfabetizado? — insistiu a mãe.

— Ah, foi muito difícil. Graças a Deus já sei ler e escrever direitinho — respondeu o garoto contente consigo mesmo.

— Então, meu filho, nada se consegue sem esforço. Também as nossas imperfeições precisam de muita boa vontade da nossa parte para ser tiradas do nosso íntimo. E o ressentimento é uma delas. Precisamos aprender a perdoar.

— Ah! Já entendi. A senhora quer dizer que preciso exercitar o perdão, não é?

— Exatamente.

— Está bem, mamãe. Vou tentar.

No dia seguinte, muito a propósito, Marcelo foi brincar com um vizinho e, sem querer, quebrou um carrinho de estimação do garoto.

Triste, mas conformado, o menino aceitou seu pedido de desculpas, dizendo:

— Não tem importância, Marcelo. Sei que você não fez de propósito.

Ao ouvir as palavras do amigo, que com justa razão deveria estar zangado com ele, Marcelo lembrou-se das palavras da mãe quando afirmou que todos precisamos de perdão.

Naquele mesmo dia, procurou o colega na escola e, com um sorriso alegre, disse:

— Quero que você me desculpe se fui grosseiro outro dia, Gabriel.

— Você tinha razão, Marcelo. Eu rasguei seu livro — respondeu o menino.

— Mas tenho certeza de que não fez por querer — afirmou convicto.

— É verdade. Ele caiu das minhas mãos e, tentando segurá-lo, eu o rasguei.

Abraçaram-se contentes, prometendo mútua amizade.

Depois das aulas, Marcelo levou Gabriel até sua casa e apresentou-o à sua mãe.

— Mamãe, este é o meu “amigo” Gabriel — falou, acentuando a palavra.

Muito satisfeita, pelo sorriso do filho a mãe percebeu que o mal-entendido terminara e que Marcelo havia aprendido a perdoar.

Autoria: Célia Xavier Camargo – Imagem meramente ilustrativa - Fonte: Internet Google.
 

sexta-feira, 1 de julho de 2022

O Circo Chegou

Geraldinho andava sem destino pelas ruas, chutando pedras.

Ao virar uma esquina, deparou com um grande cartaz colorido onde se via um leão e um domador.

— Oba! O circo chegou!

Geraldinho sempre tivera grande atração por circos, mas dificilmente aparecia algum em sua pequena cidade.

Imediatamente o menino revirou os bolsos da bermuda a ver se encontrava alguma moeda. Nada. Só algumas figurinhas, um pedregulho bem polido e um estilingue.

— Como vou fazer para ir ao circo?

Pensou um pouco e descobriu:

— Já sei. Vou pedir dinheiro para a mamãe.

Voltando para casa, Geraldinho falou com a mãe, que respondeu:

— Dou sim, meu filho. Antes, porém, preciso que você me ajude varrendo o quintal.

— Varrer o quintal? Trabalhar? Nem pensar!

Geraldinho foi até a mercearia da esquina, onde o seu José era muito seu amigo.

— Seu José, poderia emprestar-me uma moeda? Quero ver o espetáculo do circo e não tenho dinheiro.

— Como não, Geraldinho? Darei a moeda se você me fizer um favor. O empregado não veio hoje e tenho algumas entregas para fazer. Poderia fazê-las para mim?

O menino, muito desapontado, foi saindo de fininho:

— Infelizmente não posso, seu José. Tenho que estudar.

Voltando para casa, Geraldinho passou defronte da residência de dona Luzia, uma vizinha muito boa e simpática. Como ela estivesse ali fora varrendo a calçada, o menino atreveu-se a pedir-lhe uma moeda emprestada.

— Claro, Geraldinho! Dar-lhe-ei a moeda, mas estou tão atarefada hoje! Minha ajudante está doente e preciso de quem me ajude a arrancar o mato do jardim. Se você me fizer essa gentileza, prometo dar-lhe não uma, mas duas moedas.

Decepcionado, o garoto respondeu:

— Infelizmente, dona Luzia, agora não dá. Minha mãe está me esperando. Até logo! — e foi embora.

Geraldinho era assim mesmo. Não gostava de fazer nada e as pessoas conhecidas sabiam disso.

Aflito, o menino via o tempo passar sem conseguir recursos para ir ao circo.

À noite, aproximou-se do local onde o circo estava montado. A lona, toda esticada, parecia um balão; o nome, em letras grandes e luminosas, piscava, convidando-o a entrar. Mas, como?

Geraldinho pensou que, se tivesse feito algum serviço, qualquer serviço, teria a alegria de assistir ao espetáculo, mas agora era tarde. Essa seria a última apresentação, e, no dia seguinte, a lona estaria desarmada e os caminhões rodando pela estrada afora.

Sentou-se no meio-fio a observar o movimento de pessoas e carros que iam e vinham.

Nisso, uma senhora idosa escorregou e caiu no chão. A sacola que carregava abriu e o conteúdo se espalhou pela calçada.

Penalizado, o garoto levantou-se imediatamente e a socorreu.

— A senhora está bem, vovó? — perguntou atencioso.

— Estou bem, meu filho, não foi nada. Graças a Deus, não me machuquei. Ficarei dolorida por alguns dias, mas é só.

O menino ajudou-a a erguer-se e, depois, recolheu as coisas dela que tinham caído no chão, colocando tudo de volta na sacola.

Refeita do susto, a senhora pediu a Geraldinho que a ajudasse a atravessar a rua.

Percebendo que a sacola estava muito pesada, ele se prontificou:

— Farei mais, vovó. Vou acompanhá-la até sua casa e carregarei a bolsa para a senhora, pois está muito pesada.

— Quanta gentileza! Mas não quero atrapalhar, meu filho. Com certeza você tem alguma coisa para fazer...

Pensando no circo, o menino suspirou, afirmando:

— Não... nada tenho para fazer.

Geraldinho levou a senhora até o portão da residência e despediu-se. A velhinha abriu a bolsa e, pegando uma linda moeda, entregou-a ao garoto:

— Agradecida, meu filho. Olhe, isto é para você. Compre o que quiser. E venha visitar-me qualquer dia desses!

Surpreso, Geraldinho fitou a moeda depositada na palma da sua mão. Era exatamente o que precisava para comprar o ingresso do circo.

Quando menos esperava, recebeu o que tanto queria. Geraldinho compreendeu que, como ajudara a velhinha, também fora ajudado. Compreendeu também que, se desejamos alguma coisa, temos que nos esforçar para obtê-la. Que, na medida em que damos, recebemos em troca.

Assim, Geraldinho comprou o ingresso e, naquela noite, divertiu-se a valer assistindo ao espetáculo do circo.

Autoria: Célia Xavier Camargo – Imagem meramente ilustrativa - Fonte: Internet Google.
 

quarta-feira, 15 de junho de 2022

A Mentira

Embora não fosse rica, Clarinha era uma menina a quem nada faltava. Morava numa casa confortável, tinha uma família amorosa e, tudo o que desejava, na medida do possível, seu pai lhe comprava.

Mas Clarinha tinha um grande problema: a mentira.

Mentia a todo instante, para qualquer pessoa e em qualquer ocasião. De tanto mentir, Clarinha não conseguia mais parar. A mentira tornara-se um hábito em sua vida e quando menos se esperava, lá estava ela inventando coisas.

Na verdade, ela sentia verdadeiro prazer nisso e seus olhos brilhavam de satisfação ao inventar uma história.

Certo dia, Clarinha estava na escola quando um vizinho veio perguntar se ela sabia do paradeiro de seus pais.

Mais que depressa ela colocou a cabecinha avoada para funcionar:

— Ah! Sei sim! Papai e mamãe foram visitar meu tio João que está doente. Sabe? Ele está com um problema terrível no estômago e...

— E onde mora seu tio João?

— Mora na cidadezinha aqui perto. Não sei o endereço, mas é próximo ao supermercado.

O amigo de seu pai agradeceu e saiu rapidamente, aflito.

Quando Clarinha saiu da escola, após as aulas, foi para casa brincando pelo caminho, colhendo flores e parando para ver as vitrinas das lojas de brinquedos.

Chegando próximo à sua casa, percebeu um movimento incomum. Uma grossa cortina de fumaça cobria tudo e os vizinhos tentavam apagar o fogo inutilmente.

Viu seus pais suarentos e cansados, que faziam esforços para retirar seus pertences do interior da casa em chamas. Com os olhos arregalados de espanto, Clarinha perguntou:

— O que aconteceu, papai?...

Virando-se para ela, ele respondeu com severidade:

— Aconteceu, minha filha, que sua mãe esqueceu o ferro elétrico ligado e a casa pegou fogo. Nossos vizinhos perceberam que algo de estranho estava acontecendo pelo cheiro de queimado que se espalhava ao redor, e não sabendo onde nos encontrar, perguntaram a você.

Clarinha, muito vermelha, abaixou a cabeça envergonhada.

— Então, fomos visitar seu tio João que está doente?

Gaguejando, Clarinha procurou se desculpar:

— Pa... papai, desculpe. Não pensei que fosse causar algum problema!

— “Algum problema”? Minha filha, você percebe o que fez com sua mentira? Quase perdemos tudo! Bastaria que tivesse dito a verdade, isto é, que fomos ao sítio, pertinho da cidade, para que grande parte do problema fosse evitado. Embora desejosos de ajudar, nossos amigos não conseguiram abrir a porta, que estava trancada. Se tivessem nos encontrado antes, nada disso teria acontecido.

— Estou tão envergonhada!...

— Espero que isto lhe sirva de lição, minha filha. Graças a Deus, perdemos apenas bens materiais. Nossa família nada sofreu — completou com um suspiro de alívio.

Com os olhos cheios de lágrimas, Clarinha prometeu:

— Vou tentar me corrigir, papai. Nunca mais direi uma mentira. Daqui por diante quero dizer só a verdade.

Autoria: Célia Xavier Camargo – Imagem meramente ilustrativa - Fonte: Internet Google.
 

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Respeito Mútuo

O senhor Manoel era um homem muito bom e compassivo. Vivia do amanho da terra e suas tarefas eram executadas sempre com amor e devotamento. Ele tinha um filho que, não obstante a educação que lhe dava, era indisciplinado e agia sempre sem se preocupar com os outros, jamais cogitando se prejudicava alguém ou não.

O pai carinhoso tentava orientá-lo para o bem, afirmando-lhe que sempre devemos amar o próximo e respeitá-lo, como Jesus nos ensinou.

– E os animais? - perguntava Toninho, impaciente.

– Os animais também, meu filho. São nossos irmãos menores, credores de toda a nossa consideração e respeito, necessitando da nossa ajuda, tanto quanto nós não prescindimos do concurso deles para nossas tarefas do dia-a-dia.

Como estavam no campo, o pai fez uma pausa e exemplificou, apontando um animal atrelado ao arado.

– Veja o Gentil, por exemplo. É dócil e manso, nunca desdenhando o trabalho árduo do campo, e, nestes anos todos em que trabalhamos juntos, nunca o vi rebelde e indisciplinado. Jamais agrediu alguém!

– O Gentil ainda concordo, pois ele o ajuda, papai. Mas os outros!... – retrucou Toninho com desprezo.

– Os outros animais também ajudam, meu filho. Cada qual tem uma tarefa diferente, mas não menos importante. A Mimosa, nossa vaquinha, fornece o leite tão gostoso que bebemos toda manhã; as galinhas fornecem os ovos para a nossa alimentação e o nosso cão trabalha sem descanso, cuidando da defesa da nossa casa. Portanto, todos merecem nosso carinho e gratidão.

Mas Toninho ainda não estava convencido.

No dia seguinte, o senhor Manoel convidou Toninho para irem à cidade fazer umas compras. Toninho, eufórico com o passeio, aboletou-se na pequena carroça, feliz da vida.

Ao chegarem à cidade, enquanto seu pai entrou no armazém para fazer compras, Toninho ficou vendo o movimento da rua.

O tempo foi passando e seu pai não voltava. O menino foi ficando impaciente.

Olhou para Gentil, que permanecia parado, de olhos baixos, humilde, sem dar demonstrações de impaciência. Teve vontade de agredir o animal para ver sua reação.

– Vou dar uma volta. Veremos se ele é realmente obediente.

Toninho olhou ao redor e viu um pedaço de tábua, longo e fino, numa construção ali perto.

Pegou a ripa e, sem titubear, subiu na carroça e ordenou a Gentil que andasse. O animal, não reconhecendo a voz do dono a que estava habituado, não saiu do lugar.

Toninho, tomando da ripa, desceu com ela sobre o lombo do cavalo. Este relinchou de dor e, levantando as patas dianteiras, empinou perigosamente a frágil carroça, jogando Toninho ao chão.

Ao ouvir os gritos na rua, o Sr. Manoel acudiu correndo, encontrando o filho no solo, aos berros.

Ao saber do que acontecera, através de pessoas que assistiram ao fato, Manoel ficou indignado.

– Mas, papai, o senhor disse que o Gentil era manso e ele me derrubou! – gritava o garoto, surpreso.

E o pai, pegando o filho e levando-o até junto do animal, disse-lhe:

– E acha que ele poderia agir diferente? Veja o que você fez com o pobre animal!

Do lombo do cavalo escorria um filete de sangue. Toninho não percebera que na ponta da ripa existia um prego e fora a dor do ferimento que fizera Gentil reagir.

Aproveitando a oportunidade que se lhe oferecia, Manoel completou:

– Gentil é manso como um cordeiro. Apenas se defendeu de uma agressão, instintivamente. Todos nós, meu filho, recebemos de acordo com que tivermos feito. Se você tivesse lhe dado carinho e amor, teria recebido a retribuição correspondente. Como você agrediu, foi agredido. Entendeu?

Muito envergonhado, Toninho balançou a cabeça em sinal de assentimento e prometeu a si mesmo que nunca mais cometeria o mesmo erro.

Autoria: Célia Xavier Camargo – Imagem meramente ilustrativa – Fonte: Internet Google.
 

domingo, 15 de maio de 2022

A Galinha Insatisfeita

Em certo sítio bastante agradável, vivia uma galinha chamada Petita.

Normalmente, Petita estava de mau-humor, reclamando de tudo e de todos.

O poleiro era muito alto, o ninho muito duro, o milho não tinha gosto, as minhocas não eram macias, e a água não era limpa nem fresca.

Enfim, nada estava bom para dona Petita.

As outras aves do terreiro andavam sempre alegres e felizes, mas dona Petita já acordava de mal com a vida.

Se o galo cantava muito cedo seu có-có-ró-có-có, ela reclamava que ele não a deixava dormir; se ele cantava mais tarde para atender-lhe a vontade, ralhava com ele porque a fizera perder a hora de levantar. Quando os animais faziam festa no terreiro, ela reclamava do barulho; se não a convidavam para dançar e participar das brincadeiras, afirmava-se abandonada por todos.

Enfim, não sabiam mais o que fazer para agradá-la.

Até que um belo dia ela ouviu a patroa conversando com o empregado encarregado de tratar dos animais:

— Amanhã logo cedo quero que você pegue a Petita e a mate. Eu desejo comer galinha ensopada no almoço. E ela está bem gordinha, no ponto de ir para a panela.

A galinha, que ciscava ali perto, ao ouvir isso estremeceu. Queriam botá-la numa panela!

E Petita já começou a sentir os tormentos que a aguardavam.

Aquela noite, Petita não conseguia dormir. E quando, afinal, fechou os olhos, exausta, teve sono agitado. Sonhou que o empregado corria atrás dela e agarrava-a com força; já se sentia num tacho com água fervente, e depois alguém lhe tirava as penas, deixando-a peladinha, peladinha. Foi temperada com esmero, e ia ser colocada no fogo, quando ela acordou, suando frio e toda arrepiada.

A pobre Petita chorou... Chorou muito. Quem poderia ajudá-la? Ninguém gostava dela! Tinha certeza de que ficariam muito felizes com seu sofrimento e ninguém sentiria sua ausência.

O dia começou a clarear e Petita lamentou, lembrando-se que nunca mais ouviria o lindo co-có-ró-có-có do galo; que nunca mais botaria ovos no seu ninho, que agora reconhecia ser tão macio e quentinho; que não mais comeria o milho gostoso e as minhocas tenras; que nunca mais conversaria com ninguém, e percebeu como iria sentir saudades de tudo aquilo.

Só então Petita se deu conta de como sua vida sempre fora boa e agradável. Quanto tempo ela perdera se lastimando!

— Oh! Deus! Se eu pudesse voltar atrás, faria tudo diferente — pensava, suspirando profundamente.

O empregado já se aproximava para pegá-la, quando surgiu a patroa conduzindo seu filhinho pela mão.

O garoto, ao ver a intenção do empregado começou a chorar, gritando:

— Não! Não quero que matem a Petita! Não quero que matem ninguém!

E a mãe, surpresa com a atitude do menino, retrucou:

— Ora essa, meu filho! Galinha ensopada é tão bom!

— Não quero, mamãe. Prefiro comer batatas, se for para sacrificar alguém.

A mãe pensou... Pensou... Na atitude do filho e afinal concordou, dizendo-lhe:

— Tem razão, meu filho. Não devemos tirar a vida de ninguém. De hoje em diante todos os animais deste sítio estão a salvo e poderão viver tranquilos.

Petita respirou, aliviada. Estava salva! E devia sua vida justamente àquele garoto que ela sempre considerara tão desagradável, e que agora afirmava gostar dela!

Satisfeita e cacarejando feliz, Petita abraçou a todos no terreiro, e fizeram uma grande festa.

A partir desse dia, Petita transformou-se numa galinha alegre e satisfeita da vida, não se cansando de agradecer a bondade de Deus, que lhe dera uma nova oportunidade, pela mão de uma criança.

Autoria: Célia Xavier Camargo – Imagem meramente ilustrativa – Fonte: Internet Google.
 

domingo, 1 de maio de 2022

A Dor de Garganta

Sentada à porta da sua casa em companhia de Cláudia, uma amiga, Mariana divertia-se a observar as pessoas que passavam, tecendo comentários em torno de cada uma delas. E dizia, rindo:

— Veja, Cláudia, aquela mulher lá do outro lado da rua. Que roupa horrorosa!

Dali a pouco comentava:

— E aquela outra? Olhe os cabelos dela, desgrenhados. Parece uma bruxa! Só falta a vassoura! — e caía na gargalhada.

Ao ver um garoto que passava na frente delas, criticou em voz alta, sem se preocupar que ele ouvisse:

— Olha o tênis desse menino! Está todo sujo e rasgado! Deve tê-lo encontrado numa lata de lixo.

O garoto, que ouvira a observação de Mariana feita com desprezo, virou-se e olhou para elas com expressão de tristeza e humilhação, e, baixando a cabeça, continuou seu caminho sem dizer nada.

Cláudia, de coração bom e generoso, ficou muito envergonhada com a atitude da amiga.

— Mariana, precisamos ter respeito com as pessoas. Não podemos tratá-las dessa maneira. Viu como o garoto ficou chateado?

Indiferente, Mariana retrucou, balançando os ombros:

— Que me importa? É bom mesmo que tenha ouvido, assim não sairá mais à rua daquele jeito!

— Ele não tem culpa de ser um menino pobre, Mariana. Com certeza é o melhor par de calçados que tem! Além disso, Jesus ensinou que devemos fazer aos outros o que queremos que os outros nos façam. Você gostaria que alguém agisse assim com você?

Mariana, porém, que não estava acostumada a ser contestada pela amiga, reclamou com maus modos:

— Você é uma chata! Vá embora!

Levantou-se irritada e entrou batendo a porta, deixando Cláudia sozinha no portão.

A mãe, ao vê-la chegar daquele jeito indagou:

— Que falta de educação, minha filha! Por que bateu a porta daquela maneira?

E Mariana, numa crise de raiva, respondeu nervosa:

— A Cláudia me irrita, mamãe! Não quero mais saber dela. Não sou mais sua amiga.

A mãe não disse nada, limitando-se a convidá-la para almoçar.

A família acomodou-se para a refeição. Sentados à mesa, Mariana continuava de péssimo humor: reclamou do irmãozinho, que não comia direito; do avô, que fazia barulho para tomar a sopa; da comida, que não estava a seu gosto; e até do cachorro, que latia no quintal.

Após a refeição, a mãezinha chamou Mariana, sentou-se com ela no sofá e, aconchegando-a ao coração com muito carinho, perguntou:

— Minha filha, quer me contar o que aconteceu e que a deixou tão mal-humorada?

Mais calma, Mariana contou tudo o que acontecera. A mãe ouviu e, com serenidade, lembrando-se de todas as vezes que havia alertado a filha para esse problema, considerou:

— Sua amiga Cláudia tem razão, minha querida. Comece a observar seu comportamento e perceberá que você só enxerga o lado negativo de tudo. À hora do almoço mesmo, limitou-se a criticar seu irmãozinho, o avô, a comida e até o cãozinho de quem você gosta tanto. Nada disse de agradável para ninguém!

A bondosa senhora parou de falar, analisando o efeito de suas palavras, e prosseguiu:

— Não acha que deve mudar a maneira de encarar a vida, procurando ver mais o lado positivo das pessoas, das situações e das coisas? Você será bem mais feliz, pode acreditar. Além disso, Jesus ensinou que cada um receberá de acordo com as próprias obras. Aquilo que semeamos, colhemos. É da Lei.

Mariana ouviu as palavras da mãe e permaneceu pensativa o resto do dia.

Naquela noite, foram fazer uma visita à vovó que morava do outro lado da cidade. Na volta, o tempo virou para chuva e ventava muito. A temperatura caiu e, quando chegaram em casa, já estava chovendo.

No dia seguinte, Mariana acordou com dor de garganta e completamente sem voz. Ao ver a mãe na cozinha preparando o café, apanhou uma folha de caderno e escreveu:

— A senhora tinha razão. Já estou colhendo!

Ao ler o que estava escrito, a mãezinha sorriu achando graça e respondeu:

— É natural que você esteja com a garganta irritada, filha. Ontem apanhou muita friagem!

Mas apesar do comentário materno, Mariana conservou a íntima certeza de que estava recebendo pelo que fizera aos outros. Havia falado demais, menosprezado seus semelhantes, e agora estava sem voz.

— E se eu não puder falar nunca mais?!... — pensou ela, assustada.

Naquele momento, Mariana tomou uma decisão. Procuraria modificar sua maneira de agir, realçando o lado bom de tudo e passaria a respeitar todas as pessoas.

Começou a colocar em prática suas boas disposições logo ao sair de casa para ir à escola, pedindo desculpas à Cláudia pelo que fizera. Mas, tranquila e bem humorada, a amiga nem se lembrava mais do desentendimento.

Satisfeita da vida, levantando a cabeça e olhando o céu, Mariana exclamou contente:

— Que dia lindo!

Autoria: Célia Xavier Camargo – Imagem: Internet Google.
 

sexta-feira, 15 de abril de 2022

A Casca de Banana

Laurinha estudava na escola de seu bairro, e estava na terceira série do primeiro grau.

Não se preocupava muito com os estudos, mas conseguia sempre ser aprovada, embora com dificuldade.

Agora, já quase no final do ano, Laurinha ia fazer uma prova muito importante.

Sua mãe aconselhava-a a estudar, mas Laurinha respondia:

— Depois. Agora estou brincando.

— Laurinha, venha estudar, minha filha!

— Mais tarde, mamãe. Agora preciso conversar com minha amiga.

Algumas horas depois a mãezinha atenta a chamava novamente, e ela replicava:

— Amanhã, mamãe. Posso assistir à televisão? Só um pouquinho!

Depois, ficava com sono e ia para a cama e, no dia seguinte, tudo se repetia da mesma maneira.

Até que chegou o dia da prova.

Nervosa, Laurinha foi para a escola e voltou bastante deprimida.

Uma vergonha! Tirara nota ZERO na prova e fora a chacota de toda a classe. Os outros alunos foram bem e acharam as questões fáceis. Só ela não sabia nada, e, portanto, nada respondera.

A professora a chamara na frente, inquirindo a razão daquele tremendo fracasso, porém Laurinha, de cabeça baixa e muito envergonhada, nada respondeu.

Ao chegar em casa contou à sua mãe, chorando muito. Sentia-se humilhada perante os colegas de classe, achava que ninguém gostava dela. E tomou uma decisão:

— Não vou mais à escola! Não quero mais ver ninguém.

A mãe, com carinho, afagou-lhe os cabelos dizendo com ternura:

— Não se comporte dessa maneira, minha filha. Na verdade, você recebeu uma lição merecida. Colheu o que plantou, entende? Como não estudou nada, nada poderia saber, não é? O seu fracasso é, portanto, responsabilidade sua!

A menina fitou a mãe, surpresa, já parando de chorar.

— Pode ser. Mas não volto mais àquela escola. Nunca mais! E, depois, vou perder o ano mesmo!

Sua mãe sorriu, sabendo que não era o momento para insistir no assunto. Laurinha iria refletir e, provavelmente, mudaria de atitude.

Para espairecer, convidou-a para irem juntas à padaria da esquina. No caminho, a menina, que se distraía com o movimento da rua, pisou numa casca de banana que alguém jogara na calçada. Levou o maior tombo!

Rapidamente, toda dolorida e olhando em torno, para ver se alguém presenciara sua queda, Laurinha levantou-se, envergonhada.

A mãezinha viu naquele incidente oportunidade para uma lição e não perdeu tempo:

— Por que você não ficou esparramada no chão?

Laurinha olhou para a mãe, surpresa e sem entender a pergunta.

— O quê? Por que não fiquei no chão? Claro que não!

— Ah! Você não pensou em ficar na calçada, estatelada?

Laurinha replicou, horrorizada:

— Que ideia, mamãe! Naturalmente que não. Levantei o mais rápido possível!

A senhora balançou a cabeça, concordando:

— Isso mesmo, minha filha. É assim que devemos agir sempre. Não acha você que a situação na escola seja mais ou menos a mesma?

Laurinha escutou e pareceu meditar por momentos.

— Pense bem, querida. Em nossas vidas as dificuldades são obstáculos que precisamos superar. E não importa quantas vezes levemos uma queda, temos sempre que nos levantar e seguir em frente.

A menina sorriu e seus olhos se iluminaram.

— A senhora tem razão, mamãe! Uma prova mal feita não significa nada, a não ser que preciso me esforçar mais. Amanhã vou para a escola.

No dia seguinte, logo cedo, Laurinha voltou às aulas e, para alegria sua, a professora deu-lhe uma nova oportunidade para que pudesse recuperar os pontos perdidos.

Afinal, aquele problema que lhe parecera tão grande e sem solução, na verdade era bem pequeno.

E Laurinha, desse dia em diante, sempre que se via em dificuldades e tinha vontade de desistir, lembrava-se da lição que lhe dera uma humilde e desprezada casca de banana.

Autoria: Célia Xavier Camargo – Imagem: Internet Google.
 

sexta-feira, 1 de abril de 2022

A Pipa de Coração

Gabriel era apaixonado por pipas.

Desde pequeno seu pai lhe ensinara a fazer pipas e a soltá-las.

Era com imensa alegria que ele levava a pipa para o campo e corria, soltando a linha, até vê-la subir no ar, cada vez mais alto.

Margarida, uma amiga de Gabriel, sempre pedia:

— Gabriel, você me deixa soltar a sua pipa? Só desta vez!

Mas ele respondia:

— Não. Isso não é coisa de menina. Além disso, você não sabe, e vai estragar minha pipa.

E a menina, inconformada, reclamava:

— Mas eu deixo você andar na minha bicicleta! E ler meus livros!

Certo dia, Gabriel tinha feito uma linda pipa nova e a garota tornou a pedir para que ele a deixasse soltá-la.

— Não adianta, Margarida. Você não vai colocar a mão na minha pipa nova.

A menina afastou-se dele e foi embora, muito brava e revoltada.

Após as aulas, passando perto da casa de Gabriel, Margarida viu que ele estava se divertindo num balanço, junto de outra amiga. Viu também que ele havia deixado a pipa nova encostada em uma árvore.

Ela se aproximou e, sem que ele percebesse, pegou a pipa e saiu correndo.

Chegando em casa, foi logo empinar a pipa. Com satisfação, viu que ela subiu e soltou mais linha. De repente, tentou puxar e não conseguiu: a pipa estava presa num galho. Com medo de que Gabriel, procurando a pipa e não a encontrando, viesse atrás dela, puxou com força e a pipa rasgou, caindo no chão, toda estragada.

Margarida, assustada, recolheu os restos e correu a escondê-los em seu quarto.

Não demorou muito, apareceu Gabriel.

— Roubaram minha pipa, Margarida. Você viu quem foi?

— Não, não vi.

Ela entrou em sua casa e deixou-o na rua, sozinho.

A mãe notou que Margarida estava estranha. Na hora de dormir perguntou a ela:

— Você não está bem, minha filha, parece triste. Quer contar o que aconteceu?

A menina começou a chorar e contou para a mãe o que tinha acontecido.

— Não tive intenção de estragar a pipa dele, mamãe. Só quis ter o gostinho de brincar um pouco com ela! Agora não sei o que fazer!

A mãe abraçou-a, carinhosa:

— Eu sei, minha filha. Porém você cometeu um gesto feio: pegou o brinquedo dele sem pedir. E depois, acabou estragando-o.

— O que devo fazer, mamãe?

— Faça uma prece e peça que Jesus a ajude. Lembre-se de tudo o que já aprendeu. Consulte sua cabecinha, pense bem. Amanhã tenho certeza que você acordará com a solução. Agora, boa noite. Durma bem, minha filha.

Margarida pensou... pensou... pensou...

Lembrou-se de que pegar a pipa do amigo sem permissão dele, mesmo tendo a intenção de devolver, foi um desrespeito e que, numa situação semelhante, não gostaria que fizessem o mesmo com ela.

No dia seguinte, tinha decidido o que fazer.

Após as aulas, comprou papel, muniu-se do necessário e fez uma pipa. Muitas vezes tinha visto Gabriel trabalhar e sabia como fazê-lo.

Mais tarde, enchendo-se de coragem, procurou o amigo e contou-lhe o que tinha acontecido, terminando por dizer:

— Peço-lhe desculpas, Gabriel. Não tive intenção de estragar sua pipa. Mas, para compensá-lo, aqui está outra que fiz especialmente para você.

— Aqui está, Gabriel. Espero que goste! — pegou a pipa e entregou ao garoto.

O menino ficou comovido ao ver sua pipa nova. Tinha o formato de um coração.

Depois, ele abraçou Margarida com carinho:

— Margarida, eu reconheço que sempre fui muito chato com você. Por isso, também tenho que lhe pedir desculpas. De hoje em diante, tudo vai ser diferente.

— Amigos?

— Amigos!

Dali a pouco, Gabriel já estava testando sua pipa nova, todo feliz da vida, enquanto Margarida o observava, satisfeita por ter resolvido o problema.

Gabriel virou-se para Margarida e sugeriu com um sorriso:

— Bom trabalho. Ela ficou ótima! Quer experimentar?

Autoria: Célia Xavier Camargo – Imagem: Internet Google.
 

terça-feira, 15 de março de 2022

A Visita

Sílvia morava numa casa confortável, tinha pais amorosos, frequentava uma boa escola e nada lhe faltava.

Filha única, ela se acostumara a ver satisfeitas todas as suas vontades, e jamais aceitava “não” como resposta.

Com o passar dos anos, os pais de Sílvia perceberam como tinham errado na educação da filha. Reconheceram que tinham transformado a menina, agora com oito anos, numa criaturinha egoísta, arrogante, insatisfeita, orgulhosa e exigente. Quando não faziam sua vontade, jogava-se no chão e esperneava, berrando a plenos pulmões.

Após passar por inúmeros vexames, os pais de Sílvia resolveram que era preciso mudar, antes que fosse tarde demais. O que era engraçadinho numa criança de dois anos tornara-se inaceitável numa garota de oito.

Querendo colocá-la diante da realidade, certo dia a mãe lhe disse:

— Venha, minha filha. Vamos sair.

— Oba! Vamos fazer compras? Estou mesmo precisando de um montão de coisas! Quero comprar algumas camisetas, três calças jeans, alguns calçados e também brinquedos. Estou cansada dos que tenho. São velhos e imprestáveis! — considerou a menina, fazendo uma careta.

A mãe, tranquilamente, afirmou:

— Não vamos fazer compras, Sílvia.

— Ah! Não? E aonde vamos, posso saber?

— Vamos fazer uma visita.

— Não quero fazer visita! Quero fazer compras! — respondeu a criança, mal-humorada.

Sem perder a calma, a mãe insistiu:

— Primeiro a visita. Depois, se você se comportar, veremos!

Sem dar maiores explicações, Olinda pegou a filha pela mão e levou-a até o carro. De cara amarrada, a menina olhava pela janela.

O carro deixou as ruas de maior movimento, encaminhando-se para um bairro na periferia. Aonde iriam? — pensou Sílvia.

Estacionaram numa rua muito pobre. As casas eram miseráveis, as pessoas sujas e malvestidas. Nas ruas, não havia calçadas nem asfaltamento. Crianças brincavam na terra, em meio a poças de lama malcheirosa.

Sílvia sentiu nojo. Que lugar horrível!

A mãe parecia não notar tanta sujeira. Caminhava serena, cumprimentando as pessoas com um sorriso amistoso. Diante de uma casa, parou. Bateu na porta e alguém veio abrir. Era uma mulher toda despenteada, rosto sujo e roupas remendadas.

— Bom dia, Maria. Viemos fazer-lhes uma visita.

O semblante da dona da casa iluminou-se ao ver a recém-chegada.

— Dona Olinda! Que prazer tê-la em nossa casa! Entre! Entre!

Sílvia estranhou. Nunca pensou que sua mãe tivesse relacionamento com “essa gentinha”.

Entraram. A moradia era muito pequena. Na sala, que também servia de quarto, Sílvia viu um leito. Aproximou-se, curiosa.

Uma menina, que parecia ter a sua idade, estava deitada.

— Ela está doente? — perguntou surpresa.

— Márcia, quando bebê, esteve muito doente. A partir daí, não saiu mais dessa cama. Não anda, não fala, não enxerga. Só ouve. Tenho que lhe dar comida na boca. Faz as necessidades aí mesmo, por isso não há roupa que chegue. Agora mesmo, já está molhada. Fez xixi e preciso trocá-la.

Sílvia ficou olhando aquela menina que ali estava deitada, sem poder sair do leito, brincar, ir à escola ou passear. Seus olhos se encheram de lágrimas e sentiu o coração inundar-se de compaixão.

Nesse momento, ouviu que sua mãe dizia:

— Maria, trouxe gêneros alimentícios, leite e bolachas; para a Marcinha, roupas e calçados. Além disso, pegue este dinheiro. Não é muito, mas será o suficiente para pagar as contas de água, energia elétrica e comprar gás. Se precisar de mais alguma coisa, me avise. Sei que você é sozinha e não pode trabalhar porque tem que cuidar da Marcinha.

A pobre mulher não cabia em si de felicidade. Com lágrimas nos olhos agradeceu, comovida:

— Dona Olinda, foi Jesus quem mandou a senhora. Deus lhe pague! Nunca há de faltar nada para a senhora e para sua filha.

Despediram-se. Entrando no carro, iniciaram o caminho de volta. Chegando ao centro da cidade, Olinda perguntou:

— Quer fazer compras agora, minha filha?

Sílvia enxugou uma lágrima e balançou a cabeça:

— Não, mamãe. Descobri que não preciso de nada. Já tenho demais.

O resto do trajeto a menina manteve-se calada.

Mais tarde. Sílvia chamou sua mãe no quarto. Duas caixas de papelão se achavam no meio do aposento, abarrotadas de roupas, calçados e brinquedos. Com um sorriso radiante, Sílvia perguntou:

— O que acha, mamãe, de levarmos todas essas coisas para Marcinha? Afinal, não preciso delas. Tenho certeza de que, lá, terão muito mais utilidade. Também tenho alguns livros que pretendo doar. Como ela ouve, pretendo ler para ela.

Olinda abraçou a filha com carinho. A lição fora bem aproveitada. Agora estava certa de que Sílvia jamais voltaria a ser a mesma criança exigente e egoísta.

— Tem toda razão, querida. Hoje mesmo levaremos tudo para a Marcinha. Ela vai adorar!

Autoria: Célia Xavier Camargo – Imagem: Internet Google.
 

terça-feira, 1 de março de 2022

Pagar o Mal Com o Bem

Caminhando apressado rumo à escola, Orlando encontrou um grupo de colegas com quem estava tendo problemas. Sem motivo, desde algum tempo, Pedro tomara-se de antipatia por ele e passara a tratá-lo mal em qualquer lugar onde estivesse.

Por isso, vendo que o grupo se aproximava, Orlando ficou preocupado.

E não deu outra. Passando por ele, Pedro jogou a mochila de Orlando no chão, numa atitude provocadora, e depois se afastou dando uma gargalhada.

Orlando, porém, não reagiu. Com tranquilidade, abaixou-se, apanhou a mochila, e continuou seu trajeto como se nada tivesse acontecido.

Na escola, enquanto a professora escrevia no quadro-negro, Pedro levantou-se de sua carteira e jogou todo o material de Orlando no chão.

Ouvindo o barulho, a professora virou-se. Pedro, já no seu lugar, ria disfarçadamente, acompanhado pelos demais alunos.

— O que houve, Orlando? — perguntou ela ao ver os cadernos e livros espalhados no chão.

Recolhendo o material, o menino desculpou-se:

— Não foi nada, professora. Derrubei sem querer.

E isso se repetia todos os dias. Pedro encontrava sempre novas maneiras de agredir o colega: no jogo de futebol, na escola ou na rua.

Orlando nunca reagia, o que deixava Pedro cada vez mais irritado.

Certo dia, Orlando estava passeando de bicicleta quando viu Pedro e sua turma que vinham em sentido contrário. Tentou se esquivar, mas não teve jeito. Eles o encurralaram de encontro a um muro.

Orlando desceu da bicicleta, enquanto os garotos o cercavam. Pedro aproximou-se com ar ameaçador.

— É agora que eu lhe arrebento a cara, seu pirralho!

E assim dizendo, levantou os punhos cerrados, prontos para espancar o outro. Orlando continuou olhando-o sem dizer nada.

— Vamos, seu covarde! Lute!

Mas Orlando continuou calado, embora lágrimas surgissem em seus olhos.

A turma ria, incentivando Pedro que, cansado de esperar, partiu para cima do menino.

Nisso, um homem que passava viu o que estava acontecendo e correu para socorrer Orlando. O bando, assustado, saiu correndo, mas ainda a tempo de ouvir o homem perguntar:

— Sabe quem são aqueles meninos? Quer que os siga?

Enxugando as lágrimas, o pequeno Orlando respondeu:

— Não. Não foi nada. Eles não fizeram por mal. Deixe-os ir embora, senhor.

Apesar de admirado, o homem respeitou a vontade de Orlando. E, depois de se certificar de que ele estava bem, afastou-se, aconselhando-o a tomar cuidado porque a turma poderia voltar.

Na tarde do dia seguinte, Orlando saíra para fazer uma tarefa e viu Pedro que vinha de bicicleta descendo a rua. Certamente estivera fazendo compras para sua mãe, porque trazia uma sacola presa no guidão.

De súbito, tentando ajeitar melhor a sacola, Pedro não viu um buraco no asfalto. A bicicleta se desequilibrou e ele foi jogado sobre o meio-fio, batendo a cabeça na quina da calçada. Um filete de sangue escorreu pela sua testa. Sentindo muita dor, Pedro gemia.

Orlando aproximou-se, atencioso:

— Você está bem? Quer ir para um hospital? Está ferido e precisa de cuidados.

Surpreso ao ver quem o estava socorrendo, Pedro respondeu meio sem jeito:

— Não foi nada. Foi só um susto.

— Graças a Deus! Quer que o ajude a chegar em casa? — perguntou Orlando, recolhendo os tomates e cenouras que estavam espalhados pelo chão.

Pedro estava perplexo. Não entendia porque Orlando mostrava-se tão bondoso com ele. Pensativo, ficou olhando para o garoto à sua frente. Afinal, não se conteve:

— Orlando, você tem muitos motivos para me detestar. Trato-o muito mal e não perco oportunidade de desafiar, humilhar e diminuir você perante os colegas. Por que está me ajudando?!...

— Porque aprendi que não se deve retribuir o mal com o mal — respondeu o garoto com simplicidade.

Espantado com a resposta do colega, Pedro falou:

— Agora entendo porque nunca aceitou uma provocação. Mas com quem foi que aprendeu essas coisas?

— Com Jesus. A professora da aula de Moral Cristã, do Centro Espírita que frequento, falou sobre esse assunto outro dia. Jesus ensinou que devemos retribuir o mal com o bem. Que se alguém nos bater numa face, devemos apresentar a outra. E, mais do que isso, que devemos amar, não apenas os nossos amigos, mas também os inimigos. É isso.

Calado, Pedro ouviu as explicações de Orlando. Na verdade, naquele momento se deu conta de que nunca havia conversado com ele, e não sabia como era, nem o que pensava. Agora, ouvindo-o, percebeu que Orlando era diferente dos outros colegas, mais consciente e responsável, apesar da pouca idade.

Pedro sentiu, naquele instante, que o rancor e a animosidade tinham desaparecido do seu coração.

— Obrigado! — disse simplesmente, afastando-se.

No domingo, ao chegar ao Centro, Orlando teve uma grata surpresa.

Lá estava Pedro, todo sorridente, embora um pouco encabulado, para também participar da aula de evangelização.

Autoria: Célia Xavier Camargo – Imagem: Internet Google.